Entrevista: Incoerência faz artista munir de resultados surpreendentes

Jorge Dias, um dos membros fundadores do Movimento de Arte Contemporânea de Moçambique, à entrevista ao Jornal debate, conduzida pelo Nelson Mucandze considerou discurso ultrapassado a história de que o artista tem de manter uma linha e uma identidade dado que não responde actualidade. Na sua visão artística, entende que a liberdade de o artista ser mais incoerente consigo mesmo lhe permite munir de conceitos e resultados surpreendentes, aliás, como ele afirma “é uma forma de evitar cair na repetição. As vezes interessa apresentar um trabalho em que são duas peças diferentes uma da outra, como se fosse dois artistas, porque a maneira de pensarmos pode resultar em centenas de formas diferentes”. À entrevista, o artista plástico e professor de arte falou sobre o seu conceito de arte, e responde questões relacionadas com identidade das suas obras que tem sofrido críticas.

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Seus trabalhos parecem apresentar outro conceito de arte. Acreditamos que seja por isso que existem vozes que afirmam que elas (suas obras) não reflectem a realidade africana. Afinal, qual é o seu conceito de arte?

Jorge Dias: Falar sobre o conceito da arte africana é complexo… é contraditório. O meu trabalho não é exactamente um trabalho que faz narrativas sociais, culturais e nem políticas, estamos a falar daquilo que são as relações estabelecidas numa sociedade, e que podemos apresentar numa tela através de imagens que representam essa cultura. A minha é também isso, mas é acima de tudo um trabalho que mexe com vários conceitos. Esta exposição mexe muito com a ideia da identidade, com a ideia de multculturiedade, o conceito da transversalidade, o conceito da forma de ser dos indivíduos.
Todos os elementos que são usados nesta exposição são materiais que está no nosso dia-a-dia, e muitas vezes não os percebemos, porque são muito próximos de nós. Quanto mais próximo estamos de uma determinada realidade, mas distante ficamos a ela porque não vimos com muito cuidado.
Se formos a fazer uma síntese do material que está lá, encontramos cerâmica em formas de flores, insectos feitos de arame ou pasta de papel, peneira, tudo aquilo que está impregnado nesta sociedade, ou nesta cultura.
A forma de trazer é a forma mais complexa de se afastar das narrativas. É pessoal sim, mas é de alguma forma o motivo, por qual hoje temos muito material acumulado que transporta contigo energia. E eu quero que essa energia diga coisas, que penetre na gente, é que transporta a intenção da mensagem que está lá.
Talvez por ser um trabalho que não é comum no nosso dia-a-dia e a forma distancia-nos das formas da vida, ela se torne interpretado desta maneira (não reflectir a realidade africana). Não é um trabalho de arte africano, não é um trabalho de identidade moçambicana, mas ela não é nada mais, nada menos, uma forma que resulta de materiais, dos conceitos, das ideias, de forma de ser e de estar dos moçambicanos.

E qual é o seu objecto de inspiração?

Jorge Dias: Não é propriamente as pessoas apesar de o trabalho ser sobre as pessoas. As relações que as pessoas têm com o corpo, têm com os materiais, aquilo que observemos numa sociedade, a energia, o pensamento, aquilo que nos transforma e como é que nós podemos responder a este estímulo? Confesso ter dificuldades de responder isso porque quero ter respostas imediatas mas nem sempre há essas respostas.
Também temos que pensar que a arte nos possibilita hoje em dia o derrube de muitas fronteiras, as artes não tem fronteiras. E isso tira-nos algum horizonte, alguma referência, isto me interessa porque um artista que trabalha de forma predefinida e isto repete-se ao longo da sua vida como artista, acho que ele acaba se esgotando e acaba sendo repetitivo em si mesmo. Agrada-me a ideia de me colocar desafios e me roubar todas a as certezas que eu tenho e ir para território menos estável do ponto de visa conceptual de fazer trabalho. Quando eu olho para casa onde vivo, quando eu me relaciono no percurso de casa para trabalho, quando vejo pessoas a vender na rua, o que elas falam, as cores da cidade, o cheiro das pessoas, tudo isso é transbordado pelo meu trabalho através dos elementos do uso diário.
A maioria dos materiais do meu trabalho não foram acumuladas de seis meses a um ano. Muito deles foram acumulados ao longo de 10 ou 15 anos. E quando vou mexendo com estes objectos, vou trazendo novos objectos com novas ideias, e o resultado esta ai. Mas quando iniciei a primeira peça não sabia que ia chegar este resultado final.

Pintura, barro, vídeos são objectos sem nenhuma relação, como consegue associar objectos tão separadas?

Jorge Dias: Quando associamos objectos que não estabelecem nenhuma familiaridade nós acabamos tirando o espaço deste mesmo objecto para um outro, deslocamos a sua funcionalidade, o seu conceito, a sua leitura e acrescentamos uma outra, isso é vida. A vida não é feita de complementaridade, é feita de contrastes. Que dizer que para transportar melhor as minhas ideias eu preciso encontrar situações mais inesperadas de composição, mais inesperadas de associação de materiais para ser mais profundo na forma como vou transportar o conceito do meu trabalho.
Como artista é uma forma de eu evitar cair na repetição, na zona de conforto. As vezes interessa apresentar um trabalho em que são duas peças diferentes uma da outra, como se fosse dois artistas que fizeram, porque a maneira de pensarmos pode resultar em centenas de formas diferentes umas das outras. Não há dúvida nenhuma.

E esta história de que o artista tem que manter uma linha, tem que manter uma identidade este é um discurso ultrapassado no meu ponto de vista, não responde actualidade. Acho que a liberdade de o artista ser mais incoerente consigo mesmo o faz munir de conceitos e resultados surpreendentes.

Quando esteve em Brasil iniciou a obra Casulo, já em Moçambique a mesma obra continuou mas com material diferente. Porque essa transição?

Jorge Dias: Comecei Casulo com peças de vestuários. E era meu próprio vestuário que já não usava mais. Era sobre mim, a forma como eu vejo a arte. Mas quando cheguei aqui em Moçambique o material que eu encontrei foi o jornal e plástico, porque eu queria um Casulo que tivesse o lado mais social, político e cultural. O jornal tem tudo que se passa numa sociedade. E ele é um vector de transformação de mudanças sociais. Tem essa força.

Na senda de Nelson Leirner, estava interessado em cruzar a cultura popular e a cultura erudita?

Jorge Dias: Esta foi uma exposição feita em Portugal. Eram duas exposições com o mesmo título. Nelson Leirner tem quase 80 anos, as coisas que eu faço em Maputo, são as coisas que ele fez no Brasil nos anos 60, foi o primeiro artista performático da America latina. Ele quis pegar duas realidades, dois tempos diferentes. Jorge em Maputo fazendas as coisas da sua cidade ele pegando a cultura local da América latina.
Leirner quando começou nos anos 80 era interpretado da mesma forma que hoje eu sou interpretado em Maputo, considerado não brasileiro, não americano e fora do contexto. Essa disputa de identidade.

O que representam os insectos que integram seus trabalhos?

Jorge Dias: Representa a repulsa, atracção, a vida, a transformação, tem vários significados e depende de como eles são colocados. Comecei com mosquito por ser um dos insectos que mais mortes causa em África. Mas me abriu mais caminhos.

Me parece que tem criado novas obras a partir de outras conhecidas. É uma renovação?

Jorge Dias: É o conceito da obra viva. O trabalho artístico deve ser só objecto fechado em si que a história se prendeu nela, mas tem que permitir transformação. Pode ser transformado em uma outra coisa para ampliar o seu leque de discurso.

Quais são os projectos em construção e quando chegam ao publico?


Jorge Dias: Agora estou a trabalhar para o Festival de Dança Contemporânea, que irá se realizar em Maputo. Vou representar os Casulos, mas de uma forma diferente e também integrado no edifício de arquitectura, antes estava integrado no espaço exterior e interior do edifício. É um trabalho que vai ser apresentado agora em Outubro.

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