Despudor a descoberto


   O imaginário cobre o mundo infantil. Nós, os rapazes fazíamo-nos automóveis de pneus bípedes e com o motor na garganta. Travávamos lutas brutas na defesa do berlinde. Na época de caju, tentávamos acertar a fóia para introduzir a castanha. Nos dias vagos de chuva, dávamos busca do congolote para ver se continuava com a irritabilidade de sempre quando cutucado. As raparigas ocupavam-se em necas, salto à corda, e banhos demorados na suadoura busca de vaidades.
   Ambos grupos, rapazes e raparigas, estagiávamos a vida adulta na cama de areia, casa de capulana e tecto de ar, mesa improvisada e louça de lata. À noite, quando o candelabro lunar não nos era desmancha-prazeres, brincávamos a nossa deleitável brincadeira, esconde-esconde. Durante um antigamente foi assim.
   Cada passo que o tempo dá, inspira diferenças. Mas o nosso bairro, idoso que era, as rugas do estatismo decoravam-no o rosto, as mãos, pernas e tudo. E nós, acostumados com a seca da ruína que severamente escravizava o nosso político habitat, arrepiavam-nos nuvens estranhas, temendo qualquer dilúvio de mudanças. Mas o tempo, obediente à ordem natural, fazia o que há muito faz: parir o sol na maternidade matinal e deitá-lo na cama vespertina. A nossa esperança obscena desfilava a sua agonia na passarela do incerto. Fiéis ao senso incomum, nossa crença era: se o nunca fosse alcançável, talvez algo mudasse.
   À semelhança de abelhas tolhidas na colmeia do erro, palmilhámos, décadas a fio, a estrada do mesmo engano. Contra as bancas vieram os mercados, e com a balança veio a extorsão. As árvores foram soterradas pelas novas e corpulentas construções. Os fontanários e bombas de água dão pena capital aos poços, e como onde há pássaros não falta um ninho, em seguida torneiras foram instaladas. Contra as ruelas vieram as ruas; contra as escurezas veio a energia eléctrica, na companhia os electrodomésticos. Televisores brotaram com uma amistosa promoção, e é com esta que acciono os holofotes dos cenários que me entrego a narrar. Mesmo ciente de que o amor pelos factos não nos confere omnisciência, prometo contar tudo, aliás, tudo que sei.
   É a história das três moças. Com nomes diferentes e comportamentos homónimos. De comum com a ralé, só tiveram os seus nascimentos. Após três trimestres nas cidades uterinas das mães, aterraram, os pais consentiram e o registo civil consagrou-as: Albertina, Lídia e Rosalina. Na adolescência foram renomadas Tininha, Lidinha e Rosinha. Agora na mocidade decidiram encurtar as suas identidades, chamam-se: Tina, Dinha e Rosy. Nasceram em anos perto um do outro. Vizinhas e amigas de eterna infância, naquela multidão de similaridades, perscrutador é aquele que consegue desvendar-lhes a diferença etária.
   O cumprimento das rotinas impostas na criancice, desculpava-as de qualquer destino imundo. Diante de todos, ali estavam as imaculadas de que a igreja social precisava para resgatar a dignidade feminina. Donzelas alqueivadas. Com nenhum pingo de pessimismo alguém se atrevia a imaginar a fealdade do futuro de tanta beleza no presente. Comovidos até à cegueira, quem ia abrir os olhos e pensar no maior autoricida, o crescimento? Ninguém. Circunstante espectadora de reais episódios, a sociedade agraciava aos pais pela tripla benemérita. Nunca os pais tinham sentido orgulho pelas filhas.
   No melhor pano cai a nódoa. Inconscientes de quanto desmoronadiças são as fortalezas mulheris, os pais perdem o controlo necessário na adolescência e o império casto das suas princesas começa a decair. Crentes no autodomínio das filhas, dão televisores como adornos das cabeceiras, incontáveis canais a cabo, e telemóveis que facilitavam as viagens virtuais.
   Elas haviam dito que as bibliotecas da cidade eram grandes mas não maiores que a internet. Essas daí guardam livros em infinitésimas estantes. E reservam mais vantagens por considerar, os seus corredores não enchem, basta um dedo na tecla que tudo vem ao ecrã. Esses eram os seus discursos em louvor aos livros electrónicos, desses que percorremos as páginas sem folhear. Seus progenitores, com pouca vontade de estragar os dourados estudos, anuíram com a maior das urgências.
   Mentira delas. Haviam encontrado esquinas sem lampiões nos becos das redes anti-sociais. Redes eram porque pescaram todas as suas atenções usando os anzóis da diversão. Mas sociais, não, para elas não quiseram ser.  
   Em pouco tempo, era de pensar que para além de possuir as melhores bibliotecas, a internet tinha virado o pai das meninas. Nada mais importava. Os conselhos dos mais velhos, que dantes afronta nenhuma recebiam, já eram água deitada em terra seca; que despejada, é logo engolida pela insaciável sede do solo. Cada acto abominável prognosticava a queda do prestígio forjado durante muito tempo. As meninas já só eram caseiras de dia, à noite viravam andejas noctívagas, curtindo a vida. Parecia vingança daquela infância coberta de rectidão. Elas, que outrora eram mãezeiras, tinham-se tornado agora a elite sensual.
   Faces pintalgadas de maquilhagens. Corpos de viola. Lábios de piano. Peitos feitos congas. Entre as múltiplas audiências libidinosas, elas eram uma banda e tocavam o coração de qualquer homem que se oferecia às artimanhas da sua beleza artificial. E na cabeça? Uma cabeleira postiça. O seu enxame de presunções fugia do normal e excedia o comum. E elas? Culpadas de inocência, longe de pensar que aquele manjar corporal atiçava apetites selvagens, cediam às tentações que sobre si engrossavam quantitativamente.

   Os rapazes que tinham o cambo da astúcia para arrancar as frutas das ex-exemplares, faziam-no com todo o rigor, como quem sente a honrosa sensação de fazer uma freira desistir da santa vida. Do convento ao bordel. Como quem reprova a validade dum produto dentro de fora do prazo, chamavam-nas 'moças insípidas'. Não que a gente, nós outros, concorde com esses termos dignos de baixeza, lançados sobre as mulheres; é só para fazer ideia de quão grande era a mancha na reputação.

Por: ANGELINO MACHO 

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