A lenda da noiva e do forasteiro

Eis o meu segredo: já eu morri. Nem essa é a minha tristeza. Me custa é haver só uns que me acreditam: os mortos.

Era um lugar que ficava para além de todas viagens. Por ali só o vento passeava, aguamente. Naquele solitário chão há muito que o tempo envelhecera, avô de outroras.
Certa vez, porém, passou por ali um forasteiro. Era homem sem retrato nem versões. Se muito chegou, mais ficou. Todos receavam o medonhável intruso, o irreputado intromissionário. Nos olhos dele, em verdade, não aparecia nenhuma alma, parecia o cego espreitando fora das órbitas.
Quando as tardes se inclinavam, ele se aproximava da aldeia em busca de coisa que só ele sabia. Os aldeantes se perguntavam:
- Mas esse homem: de onde veio, quem é o nome dele?
Ninguém sabia. Ele aparecera sem notícia. Chegara em Fevereiro, disso se lembravam. O mês já se molhava, de água plantada. O estranho trazia um cão, seus passos se uniam um a dois. Homem e bicho multipingavam. Foram atravessando a terra matopada (Matopada - coberta de matope, lama ou lodo.) mas quando mais iam menos se afastavam. Quando desapareceram, além-árvores, a chuva parou, em súbito desmaio. Todos entenderam, todos se inquietaram.
O estranho abrigara-se em ilegível distância. Aos poucos, ele se foi tornando assunto. E nas noites, sob estalar das estrelas, as falas não variavam: o homem,
O cão. Conversa de sombras, só para afastar silêncio. Todos avançavam versões, atribuindo razões ao intruso. Inventavam, sabia-se. Mas todos escutavam, crédulos.
Uns diziam ter surpreendido o estrangeiro dormindo.
- Vimos-lhe enquanto sonecava.
Os outros pediam os detalhes, fosse o medo uma fogueira sempre carente de mais lenha.
- Vimos o quê? Vimos que a língua lhe saía fora da boca, passeava sozinha, longe do corpo.
Os escutantes nem duvidavam. Já imaginavam a cuja língua vagandeando, húmida, cuspinhosa. Falava? Lambia, beijava? Ninguém podia confirmar. Nos rumores da noite, porém, todos em tudo viam obra da língua errante.
E sobre do cão? Junto ao desparadeiro do dono, o carnídeo nunca se afastava do chão. Só levantava quando
O dono se achegava. Para os restantes, vultos que fossem, ele tinha os dentes prontos, profissionais. Mas não ladrava: piava com a fala dos mochos! Não era parecença de voz, não. Era falas iguais, gémeas-gemidas. O cachorro ladrepiava. E assim, cão e dono, mútuos farejavam as manhãs. Que procuravam? Seria coisa, seria alguém? Nem muito se podia saber: todos afastavam, temedrosos, sempre que homem e bicho se vizinhavam.
Muito-muito era por causa do cão: saía-lhe dos beiços uma baba verde-espumosa, de maldade consagrada. Tinham-lhe visto morder um cabritinho. O pobre bicho não demorou no mundo. Primeiro, desfizeram-se os cornos. Não tombaram, duplos e sólidos. Não. Desconsumiram-se, líquidos, entornados. Depois a cor do cabrito esfriou e os pêlos deram-se por voar, penas de cinza ao vento. Despelado, menos constituído que uma nuvem, o ruminante recuou para dentro do corpo. E acabou-se vazado, poeira, farelo de bicho.
Todos condiziam: o cão voava. Assim se explicavam as piações. O animal se encorujava no cimo das árvores, a baba pingava queimando folhas e ramagens. O cuspo deitava fervura no chão, parindo fumos azulentos.
Os dias se descontavam na despesa da vida. O lugar seguia na sua descampada solistência. Começaram, então, os estranhos desaparecimentos. Os camponeses, um após outro, deixavam de constar. Parecia eram atirados num fundo abismo. O medo era motivo de muito enquanto, exclusivo das almas. À noite, no regaço da fogueira, se juntavam os sussurros. Os mais velhos, puxavam antigas maldições: nós somos amafengu (Amafengu - designação que os sobreviventes da tribo Abambo davam a si próprios. "Os Abambo foram uma numerosa e poderosa tribo bantu, do Natal. Foram derrotados e cruelmente perseguidos por outras tribos e tornaram-se errantes, passando a ser conhecidos por Fingos. Procuraram refúgio noutras tribos, reduzindo-se ao completo estado de servidão [...1 De 250 000 restaram alguns 35 000 que se dedicaram à agricultura e criação de gado." António Cabral, 1975.) o povo esfomeado que procura serviço de viver, pobres que pedem a pobres. Este forasteiro é lembrança dos tempos de perseguição.
- Quem sabe ele é o Amangwane?
Falavam do guerreiro zulu, autor de sangue e matanças. Um estremor agitou a assembleia. O passado: alguém o enterra em suficiente fundura? As silhuetas se tolhiam, em pinceladas de luz. Até que, em certa fogueira, se ergueu Chimaliro, o caçador. Tinha o rosto severo, rugas sobrelinhadas. Mesmo antes de falar ele administrou muito silêncio.
- Eu vou dar morte a essa sombra.
Foi como anunciar de cobra: desfez-se a roda, a cascata de vozes se suspendeu. Chimaliro inchou no peito a promessa de trazer a cabeça do dono mais a pele do cão.
O caçador partiu, pingo em paisagem. Toda a aldeia se ajuntou para lhe garantir sorte, os tambores tocaram enquanto ele se perdia na imensidão dos matos. Os dias passaram velozes, e o caçador sem regressar. As vozes seguiam a demora dos tempos:
- Chimaliro já voltou?
Nada, não voltara. Murima, mulher do caçador, se fechava já em côncava viuvez. Certa manhã, Murima saiu finalmente de sua casa. O estranho, porém: ela trazia uma capulana amarrada nas costas. Dentro do pano se entreviam as redonduras de um nascido. A aldeia se interrogava: que criança ela podia trazer consigo? Se nenhum filho não havia, então que corpinho nenecava (Nenecar - transportar às costas, como habitualmente as mulheres africanas fazem com seus filhos.) Murima? Os olhos se compridavam, ávidos de explicação. Pelas fogueiras, os rumores enchiam as noites:
- Aquele que ela traz nas costas não é nenhum bebé. É o próprio marido, o Chimaliro.
Houve, primeiro, quem duvidasse. O caçador daquele tamanhozito? Sim, aconteceu por castigo. Quem mandou enfrentar o intruso? Maneira como sucedeu foi estória que ninguém viu mas que todos sabiam. Quando o caçador e a presa se entrefitaram, Chimaliro viu que as mãos lhe minguavam. Como fossem de tartaruga, pernas e braços entravam no vestuário. Sentiu uma quentura lhe subindo. Por dentro, os ossos escaldavam, derretendo. Chimaliro se encurtava, minimizado. Tentou fugir, desconseguiu. Já o chão lhe era muito enorme, a floresta sem-findava. Deampulou sem destino até a mulher lhe apanhar naquele estado de miniatura. Ela então lhe limpou os ranhos e lhe trouxe para casa.
O feitiço de Chimaliro deixara a esperança sem fôlego. Muitos se meteram pelo mato, tentando escapar do desespero. Em todos se renovava a lembrança do antigamente, as sofridas perseguições. O velho Nyalombe, então, convocou as gentes. Juntaram-se os sobreviventes para ouvir sua palavra.
- Não há guerra que podemos ganhar com este inimigo.
Ficasse a lição de Chimaliro, exemplo que coragem sem esperteza é simples ousadia. Este inimigo nos vai vazar, já estamos de viagem para o passado. E vaticinava: haveria de vir a noite mais longa, tão extensa que os viventes esqueceriam a cor das madrugadas. O escuro demoraria tanto que os galos enlouqueceriam e as estrelas tombariam de cansaço. A multidão já imaginava essa noite sem trégua. Nas árvores, se figuravam os pássaros, apinhados na espera da adiada madrugada. Tanto que arriscavam esquecer seus diurnos gorjeios. As flores indeferiam suas pétalas, no aguardo de si.
Os presentes se aconchegavam, o medo era o exclusivo mandador. Mas, no sereno repente, o velho Nyalombe esticou o braço:
- Só ela nos pode salvar.
Apontava a bela Jauharia. Os todos olhares se resumiam na jovem. O velho avançou entre os sentados e convidou Jauharia a erguer-se.
- Tu vais encontrar esse estrangeiro, oferecerás a ele todo o amor que fores capaz.
Foi um espanto carregado de rumores, sentidas condenações. Afinal, a menina não era noiva de Nyambi? Não se tinham eles consagrado com selo do lobolo (Lobolo - quantia de bens que o noivo entrega à família da noiva.)? Os aldeões levantavam murmúrio em protesto contra o velho Nyalombe. Não, aquele não podia ser o preço da salvação: Nyambi e Jauharia era a mais única promessa, quase eles eram os últimos, restantes jovens. Os outros se tinham ido, vida afora. Ninguém soubera deles as mais notícias, fossem engolidos no grande vazio do mundo. Naqueles namorados estava a última semente da tribo. Oferecer Jauharia aos apetites do monstro? Mais valia o derradeiramento, a total incomparência.
- E qual é a vontade tua?
Nyalombe inquiria a bela menina. Mas ela desenrolava extensas lágrimas e apenas um levantar de ombro saiu do seu gesto. Seu noivo a embrulhou em seus braços e a levou dali.
Todos reconheceram a mágoa de Nyambi. E recordaram como, em sua adolescência, o jovem se indecidia. Pois ele se demorara de mais na aplicação de seu afecto. Parecia ter o coração num bocejo: seu desejo não parecia nem despontar. Os mais velhos se preocuparam: devia de ser chicuembo, maldição pesando sobre o rapaz. Fizeram a cerimónia para limpar a sua má-sorte. Levaram Nyambi para o centro da aldeia, puseram um velho galo em cima da sua cabeça. Toda a noite o cocorico (Cocorico - galo.) se equilibrou no redondo poleiro. Madrugada, foram espreitar: os esporões do galo se adentraram na carne do miúdo, o sangue escorria-lhe pelo peito. Enxotaram o bicho e ajudaram Nyambi a sair dali.
- Agora, a má-sorte terminou. Terás tantas mulheres quantas pode ter um galo.
Fala do velho Nyalombe. Mas o jovem, em si, não queria muitas. Desejava apenas Jauharia, essa menina de olhos que amaciavam o mundo. Por motivo dela, as demais se tornavam nenhumas.
Os pais, no entanto, avisaram: essa menina é bonita de mais, seus modos pertencem a outra gente. Ele escolhesse uma sem aparência. Nyambi negava, fiel a sua paixão. A mãe sentou conversa com ele, no mais grave buscar de razões.
- Motivo dessa mulher é ser de outra raça. - Não é negra como nós...
- Isso é só por fora. Por dentro ela tem outra raça.
A beleza, assim completa, constituía uma espécie própria, afastada. Ele que teimasse e suscitaria a irritação dos espíritos, esses que vigiavam pelo sossego da aldeia.
O jovem teimou. Passados meses já se cumpriam os mandamentos do namoro, enquanto os dois se faziam únicos. A família de Nyambi se resignou: afinal, naquele tempo, nem o rapaz tinha escolha. Jauharia era a última, solitária pretendensiável.
A menina mulherava-se, seios riscando a blusa. Nyambi perdia o desenho de si, na ardência da paixão:
Hoje vou viver muitos anos!
Os dois amantes semelhavam dois rios na mesma corrente. Mas cumpriam o destino de todos rios que se esvaem em suas próprias águas. Pois Jauharia escondia uma funda tristeza, fosse a apetência de um outro viver. Gostaria ela de outro, já decorrido, ninguém? Teria ela saudades de um tempo que nunca houve? Dúvidas que jamais chegaram a nenhuma boca, nenhum ouvido.
Nyambi, agora, se interrogava: como podia ele perder sua noiva, entregá-la nos braços de um malfazedor? Nunca. Ele se preferia, meter-se-ia a guerreiro, faria frente ao intruso.
- Nunca, não vais.
- Mas, Nyalombe, eu não posso deixar ela ir.
O velho proverbiou: o homem é como o pato que, no próprio bico, experimenta a dureza das coisas. O jovem procederia a fatalidades, sem fruto nem vantagem. Aquele adversário não lidava com as vulgares armas. Só a beleza de um amor lhe apanharia de surpresa.
- Mas se ela não voltar, a aldeia morre.
- As aldeias vão todas morrer, nesse mundo.
O velho se acrescentou: não era a aldeia que merecia salvamento. Era a gente, a humana gente, essas criaturas que perfazem aldeias, famílias de aldeias.
- Agora vai, Nyambi. E confia que Jauharia é forte, capaz de dobrar o estrangeiro.
O jovem se retirou, coração fustigado, pisando os pés.
Ele então se dirigiu a casa de Jauharia. O escuro já alisava o mundo, a noiva estava no resguardo do caniço, sentada numa poça de lusco-fusco. O noivo saiu do escuro, pousou o braço sobre o ombro de Jauharia, mas ela se inalterou:
Não vale a pena, Nyambi. Eu vou, vou ter com ele.
- Mas Jauharia, você conhece...
Com um aceno ela lhe ordenou silêncio. Queria escutar a aldeia, despedir-se dos sons. Ele deixou falir os braços, desistido. E quando, à despedida, olhou a noiva, lhe pareceu que ela transitara de rosto, estrangeira também ela.
O noivo foi o último a testemunhar-lhe. Em verdade, não houve mais luz certeira sobre o assunto. Bem que os olhos da aldeia se apuravam. Na escuridão, se esfumavam visões. Nem os ouvidos espreitavam nos cantos da quietude. E dessa mínima, duvidável atenção se discute ainda o desfecho de Jauharia.
Uns dizem que escutaram o cão piando e, depois, os gemidos da menina, a carne dela rasgando-se nos dentes da fera. Outros contam que ouviram tambores: era ela que dançava, descalça sobre um chão nunca visto, luaminoso. Enquanto dançava, o corpo dela se ia trocando em suor, ela se transpiexpirava. E quando ela era quase só água, o estrangeiro avançou em concha suas mãos e recolheu-a como se ela fosse, em pleno deserto, a última bebida do viajante. Outros ainda garantem que viram o estranho rumando os bosques.
Só que, desta vez, ele não trazia um só, exclusivo cão. Dois bichos lhe roçavam as pernas, resgotejando babas.
De tudo ficava a conformidade da ausência: a noiva evadira-se, inédita. O noivo se tornara esperante, sentinela da solidão. Junto ao cercado de micaias que rodeava a aldeia ele muito se assentava. As lágrimas, em transparente descendência, destinam-se à vida se dar mais viva? As de Nyambi eram matéria-prima da vingança. O velho Nyalombe lhe prescrevia o ensinamento:
- Vingança é habilidade dos fracos.
- Quem puxa vingança é a traição, Nyalombe. Fique o senhor contra a traição se quer evitar vingança.
Traição era o nome daquela indiferença, ninguém mais se importando com o destino de Jauharia. Pois ela se ofertara, generosa, para salvar os demais. Que gratidão merecia agora?
Desde que a bela Jauharia partira terminaram os desaparecimentos, anónimas matanças. O medo já quase se despedira da aldeia. Mas os camponeses ainda não se adentravam em suas machambas, agora vertidas em espontâneas verduras. Só o vento cumpria função de enxada, kulimando (Kulimando - sachar com enxada.) areias. Nyambi se decidiu: iria resgatar a sua amada, matar o usurpador mais seu cão. Assim daria seguimento à sua existência, no acerto do tempo com o sonho. Partiu, levando uma faca nervosa, de lâmina briguenta. Calcorreou por dias nos matagais, entre lianas que subiam como amarras sustendo as nuvens.
Por fim, encontrou o quadro da sua expectância. O estranho junto a uma fundíssima fenda do chão, puxando uma infinita corda no cabo da qual se prendia um balde. Nyambi nem reconheceu as redondezas. Se atirou ao forasteiro cravou-lhe o facalhão, vezes sem conta. Depois, com força que a si mesmo surpreendeu, levantou o corpo do outro e lançou-o no abismo. O intruso tombou nas fundas águas e, de logo, ribombou imensa estrondaria, pareciam trovões nascidos do ventre da terra. As paredes do buraco estremeceram, separam-se do corpo do chão e precipitaram-se no abismo. Instantes depois, nem vestígio havia da tal brecha. Nyambi escutou então as vozes dos aldeões desaparecidos, regressados dos muitos recantos. Saudavam Nyambi, seu gesto de coragem. O jovem recebeu os aplausos com despacho: ele queria saber de sua noiva, seu estado, seu paradeiro. Os outros evitaram resposta, seus rostos desceram, graves, sobre o peito. Morta, Jauharia? Nyambi se transtornou pelos matos, procurando sinais da sua amada. Vagueou, perdido, por dias e prantos. Desistido, procurou o endereço do túmulo do forasteiro.
Quando vislumbrou o sítio, lhe pareceu ouvir um lamento, o gotejar de uma tristeza. Nyambi se chegou: era Jauharia que chorava, junto à greta. Quando notou a presença do noivo a menina se encurvou, costas do princípio ao fim.
- Eu já amava esse homem, Nyambi.
Ele rodou a jovem, intrigado. Um rosno lhe alertou. Aos pés da noiva, o cão revogava suas ferocidades. A mão de Jauharia desceu sobre a besta, lhe alisou o pêlo, ordenando sossego.
Ela falou, serena: o homem a quem ele dera morte era uma criatura de bondades maiores. Ele percorrera as terras, aprendera a imensidão. Nesse mundo ele vira quanto o tempo, em suas pressas, estraga a família do homem.
Então, a si ele se dera a missão: encontrar um lugar distante, ilha terrestre e proteger a solidão daquele sítio, pelejando a chegada do tempo. Esse era o encargo do forasteiro e ela tinha entendido quanto amor custava aquela incumbência, quanta ternura se ocultava em sua desumanidade.
- Esta é a linha de fronteira, Nyambi. Agora escolhe: regressas à aldeia ou vais para o mundo?

Nyambi abanou a cabeça, em jeito de sacudir alma. Ficou de olhar mendigo, a crer que ela ainda pudesse sair do feitiço em que tombara. Mas Jauharia se emudecera, apenas deitando carícias sobre a fera. Então, ele iniciou o regresso aos seus. Lá ao fundo, as pequenas casas já acendiam suas luzinhas. Sem que outro sonho lhe sobrasse, a aldeia se fabulava, à margem dos séculos, para além da última estrada.

Mia Couto ( Do Livro: Cada homem é uma raça)

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