quinta-feira, 12 de maio de 2016

In Time: “viver”, “existir” e “sobreviver”?


Ver uma ficção que se encaixe em nossa realidade, fazem-nos reflectir sobre tudo que nos orienta: os acontecimentos, nossas reacções e as nossas perspectivas. Raramente navego no cinema, mas, o que inova a nossa forma de ver o mundo merece ser compartilhado, afinal, os filmes, livros, músicas e teatro trazem-nos, na sua maioria, realidades que já conhecemos, mas de forma incrivelmente nova, provocando novas reflexões. No filme O Preço de Amanhã (In Time título original), o tempo virou moeda, uma realidade impensável. Os mais ricos vivem séculos e isolado e os pobres morrem vivendo, ou seja, fazendo alguma coisa. É uma ficção que cientificamente não se ajusta à nossa realidade, mas convida-nos a reflexão do conceito “viver”.

“In Time”, de Andrew Niccol, filme de ficção científica, traz-nos uma sociedade que conseguiu bloquear o gene do envelhecimento. Todo mundo cresce até os 25 anos, e depois pode permanecer jovem para sempre, se puderem pagar por isso, afinal a superpopulação do planeta é uma preocupação geral. O tempo é a moeda de troca e beneficia os ricos, enquanto os pobres perdem o último suspiro fazendo algo pela sobrevivência.

Uma análise, não tão profundo, mostra-nos uma vida de correrias e vazia, um jovem pobre e motivado e uma jovem rica e entediada que só descobre o que é viver ao lado do mocinho pobre.
Antes de trazer o trama à nossa realidade, as três perguntas que fizemos depois do filme, são: como seria viver uma sociedade em que para tudo precisamos pagar? É claro, pagamos tudo no século XXI, mas ter que pagar alguns minutos, horas, dias ou séculos de vida? Será mesmo que lutar pela sobrevivência é ter uma vida sem objectivos, embora de correias, e ter excesso de tempo (ser rico) é ter uma vida entediada, viver adiando felicidade? A resposta é sim, como concluímos com o filme.
A acção começa quando Will Salas (Justin Timberlake), morador do subúrbio é falsamente acusado de ter roubado todo o “tempo” de Henry Hamilton, o que teria provocado sua morte, e terá de provar a sua inocência e descobrir uma maneira de destruir o sistema.
O personagem Henry aos 105 anos já havia vivido o suficiente para realizar seus sonhos e não ansiava por nada (coisa raro), não conseguia encontrar mais motivação em nada diferente, assim seu desejo era a morte:

Henry: Eu tenho 105.
Will: Sorte sua, não vai chegar 106 anos se tiver mais noites como essas (mais noites nos bares).
Henry: Você está certo, mas chega um dia em que já deu. Somente se esgota mesmo que seu corpo não. Nós queremos morrer, nós precisamos (…) Para poucos serem imortais outros tem que morrer.

Uma condição desumana

O filme inova ao tratar o tempo como uma forma de dinheiro, utilizado como moeda de troca nas actividades, e ao diferenciar as palavras “viver”, “existir” e “sobreviver”, que muitas das vezes tratamos como sinónimas.
No enredo, os pobres têm de trabalhar, pedir emprestado ou roubar mais horas para chegarem vivos até outro dia. E isso implica na necessidade de se viver intensamente, já que para estas pessoas não existe a perspectiva de um futuro. Os sonhos são raros, pois não há tempo para vivê-los e isso torna cada momento mais intenso e ao mesmo tempo gera uma vida vazia pelo constante medo do tempo acabar.
O personagem Borel, é uma ilustração de que pessoas que lutam apenas pela sobrevivência não tem objectivos, trabalhava intensamente para conseguir um tempo e sustentar sua esposa e seu filho e não conseguia aproveitar momentos. Mal que ganhou dez anos de presente do seu amigo Will, parou de trabalhar, se embebedou e acabou morrendo. Vivia melhor quando pobre, porque não tinha perspectivas. Isso não me parece estar longe da realidade, faz parte da natureza do ser humano a condição de sonhar. Se uma pessoa não tiver objectivos a serem alcançados, ela não tem direcção na sua vida. Viver simplesmente por viver não é uma condição humana.
A forma como a personagem Rachel morre não deve passar despercebido do espectador. Ela tinha uma hora e meia, uma hora para pagar transporte e trinta minutos seria o tempo que levaria para chegar em casa para seu filho a dar mais um tempinho de vida. Mas, infelizmente, o preço de transporte havia subido para duas horas, não tendo conseguido quem lhe desse uma hora morreu faltando um segundo para se encontrar com o filho.
Para levar isso a nossa realidade é só imaginar alguém que morre por falta de um centavo, só porque o milionário ao lado o ignorou.
Como explicar isso? O diálogo da Sylvia e Will responde:

Salas: Como vocês conseguem viver vendo pessoas morrendo do lado de vocês?
Sylvia: Não os vimos. Fechamos os olhos.

Já os ricos, inconscientemente morrem pelo excesso do tempo, isolam-se e param de viver (apenas existem). Como não tinha preocupação com o tempo, não importava fazer uma coisa agora ou anos para frente. Isso resultava em uma despreocupação em ter um objectivo de vida, consequentemente eles não sabiam aproveitar cada momento da vida. Sylvia, por exemplo, tinha uma praia em frente a sua casa, mas nunca tinha aproveitado um banho de mar. Para os ricos que possuíam objectivos, basicamente este objectivo era obter cada vez mais tempo e com esse tempo obter mais luxos.
O filme lançado em 2011 é do director, roteirista e produtor neozelandês, Andrew Niccol. Seus filmes normalmente exploram questões sociais, políticas e culturais, como se pode ver na obra que talvez tenha sido o seu maior sucesso: O Show de Truman, que lançou seu nome no hollywood.

Nelson Mucandze

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