sábado, 5 de setembro de 2015

DUAS VIDAS SEM VOLTA

Jojó é o hipocorístico que Joaquim ganhara dos familiares e dos seus achegados. De casa o nome saiu à rua e de lá voltou com nada mudado. Conta-se que ele viveu com a mãe numa zona desconhecida, pelo menos até aos seus tenros quatro anos. Também conta-se que a mãe morreu afogada num mar de gigantesca dor, vítima de trauma causado pela má sorte no primeiro casamento. Ademais, do pai nada se relata senão bebedices. É um tal de lucidez e embriaguez indistinguíveis. Do escuro e do preto é só escolher: ou está grosso ou está a beber.

Convencidos de que o pai só sabe cuidar bem do copo quando está em suas mãos, os familiares maternos de Jojó tomaram-no após a morte da mãe para levar adiante o curso infantil do petiz que muito cedo perdera o melhor calor. Arrancado da irresponsabilidade do pai, foi cair nas mãos da dona Beatriz. Uma vez que ela é estéril – pensavam eles – vai cuidar bem do menino. Sem que antes houvesse disputas no processo de eleição da futura segunda mãe do menino, o voto comum caíra sobre a Beatriz. E é lá para aonde o menino foi levado.
Com a chegada do menino na nova casa, a dona Beatriz passava de solitária para solteira. Ela era trintona e o sobrinho tinha, na altura, cinco anos de idade e alguns meses de solidão. Levar o Jojó para morar com alguém que lhe servisse de mãe era tapar inigualavelmente o vazio que aquela grande perda havia criado no pequeno. E de facto, abrigo e carinho são os melhores pêsames que se pode dar a uma criança órfã. Na Beatriz via-se uma mulher com tudo menos filhos. Na sua proplástica personalidade modelava uma bondade de se admirar. Ela era ideal aos olhos.

A alegria duma criança anda entrelaçada com a sua ingénua felicidade. Jojó era radiante. Os mimos que o cercavam davam-no cócegas no coração. A tia Beatriz dava o seu melhor em tudo. Para o menino ela era cachaça brasileira, uísque escocês e tequila mexicana. Nas noites, era frequente a tia usar a borracha do futuro para apagar as memórias do passado da cabecita do menino. Às vezes, quando a emoção invadia as fronteiras da sua prudência, a tia despejava as suas perenes aflições sobre o menino; falava da safadeza dos namorados, da ingratidão dos amantes e da impossível fidelidade dos esposos. Jojó, o ponto fraco duma mulher torna o homem forte. – Confessava-se ao padreco e quando dava conta daquela inconveniência, calava-se, reticente!

Quando o rio está cheio, ninguém o imagina seco. No ano seguinte, aos seis anos, quando esperava-se que Jojó fizesse as fundações do seu castelo de amanhã, iniciando a carreira escolar, o menino continuava em folgas, em trabalhos domésticos, recebendo o pão de cada dia e o conforto como jorna. Para quem não pensa, tudo compensa! Também não caberia ao minúsculo juiz sentenciar aquele seríssimo crime moral.

Quando as pessoas que, pesadas pela espantosa curiosidade, não se davam nem um segundo sequer para medir as palavras, perguntavam a razão daquela excepção, a tia dizia que o ensino primário é gratuito, porém, muito caro. Para ela, mil vezes gastar o dinheiro em comida do que dar alguém que vive de caneta e gravata. Ela, a dona Beatriz, tinha uma avareza mascarada em ódio ao suborno. Quando indagada, dizia ter o azar de ser exigida valores pelos professores para matricular o seu sobrinho. E franzia o sobrolho, como se verdadeiramente o facto lhe afligisse.

No ano seguinte vai abrir outra página do cinismo para rescrever a mesma historieta. Os enganadores profissionais enganam até que a verdade não mais interesse. E, simulando preservar a puerícia do menino, fingia procurar-lhe uma ocupação. É preciso acender a mente para iluminar o corpo. Mas para ela, o contrário é que era certo. Começou com uma banca de frutas da moda: laranjas, tangerinas e bananas. Quando voltava do grosseiro mercado grossista, depois de mercar uma multidão de frutas, ligava para o carrejão pedindo que a esperasse na paragem. De quando em vez o Jojó ia junto. Começou com plásticos de peso magro; os mesmos que aos poucos engordavam e iam experimentando uma crescente obesidade. Doravante, o pequeno tem que estar a frete.
Oito anos passaram de relance. O Jojó continuava na matemática dos trocos. A escolaridade do adolescente parece não mais fazer parte dos sonhos da tia. Quando o rendimento da banca cresce convida o surgimento duma mercearia. Nessa altura ele é que ia mercar os produtos que enfeitavam a afamada Mercearia Jojeatriz. Um antagonismo estava ali patente: o brilho do negócio que obscurecia a mente do Jojó. Diante de todos revelava-se o seu engenho de ter crescido no meio de dinheiros, e em contraste à barata economia, manifestava-se em si a falta de instrução. Para quem o conhecia, ele até era tímido. Mas sendo calvo em matéria de toma-lá-dá-cá, quando alguém se atrevia em devê-lo e não se mostrar fiel ao acordo, toda a timidez era despida.

O carácter selecciona os nossos amigos, os que são como nós ou que querem ser como nós. Jojó tinha amigos que ensinavam-no a desviar fundos do estado doméstico governado pela tia; a usar o dinheiro como chamariz para algumas noites de prazer comprado; e muitos outros actos de prejuízos éticos. Um aplauso de adeptos do mal faz-nos pensar que os que nos criticam têm inveja de nós. Jojó resistia às mudanças, insistia em malfazer e persistia nos seus deleites. E esse era o lema do seu bando "de dia suar feio p'ra à noite curtir uma cena naice". Só que com a multiplicação das ressacas brotava a subtracção dos lucros.

A dona Beatriz, cansada de colher o que havia plantado, expulsa o Jojó do comando da mercearia e dá-lhe a oportunidade de endireitar a sua conduta como indemnização de quase uma década de trabalho. O insensível e o impossível são gémeos. Nenhuma chamada de atenção foi dada atenção. Em poucos dias subsequentes à dura demissão, o Jojó iça a bandeira da independência, aluga um lugar para reclinar a cabeça e pula para a venda de calamidades. Contava com a experiência da mercearia e para o futuro já escrevia sucesso com letras garrafais.

A Mercearia Jojeatriz fecha, abrindo escassezes. Esta falência resgata o desrespeito com que a dona Beatriz era tratada antes de ser ricaça. Dantes a vizinhança falava nela, agora fala dela. Outrossim o negócio do Jojó cai, erguendo preocupações. Quem sofre sentado tem a impressão de que andar alivia o sofrimento. Antes que o ganha-pão conhecesse a sepultura, o Jojó leva um charrete e inicia a venda porta a porta. Mão no varal. Já o povo chama-lhe de "moço de txova (1) de roupa". O tempo percorre lentamente o areal da vida. Da última vez que o Jojó foi visto fazendo a esquina, há sete meses, estava salmodiando os cânticos da sua habitual tristeza, ao volante da boutique móvel.
Nota:
(1) Carroça de mão na qual, no exercício do mercado informal, muitos moçambicanos transportam, exibem e vendem as suas mercadorias, a exemplo de frutas, sapatos, vestuários etc. (Nota dos editores.)



Por Nelson Mucandze

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