quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A redenção

Portais

Nascemos, reproduzimos e morremos. Não há consciência para interferir no nosso próprio nascimento, podemos negar reproduzir e ficarmos isolados, mas no final somos confundidos pelo mesmo fim, sem posterior justificação: o grande mistério. Essa trajectória humana, decretada pela natureza antes de nós, dos nossos pais, dos nossos avós, ou da própria natureza, foi objecto de reflexão que esgotou as últimas memórias do Sr. Fastudo após o seu aposento.
Mas não todo o percurso humano, ele já havia nascido e reproduzido. Seu errou, para psicólogos, foi encarar seu aposento como candidatura ao último estágio da sua trajectória, a morte.
Enganaram-se. Homens de classe do Sr. Fastudo preocupam-se sempre com as suas memórias nas próximas décadas mesmo sabendo que seus futuros estão em rápido envelhecimento. Findo a vida, poderão construir-se monumentos, estátuas e livros que reflectirão sua existência, mas a consciência de que não existe um outro tempo para refazer a vida pode ser perturbador. Ele queria aproveitar cada segundo da vida compensando os minutos desperdiçados nas ambiciosas aventuras da juventude, e estancar as lacunas por si inauguradas. Cada passo que o tempo dá, inspira diferenças, mudam objectivos, sonhos e idades. Mas é bom repetir que um homem como este, não muda dos seus objectivos pela baixeza da natureza, não se rende à degradação de ser para ter. Seu sonho desde que aprendeu que com a revolução tecnológico num mundo ainda em desenvolvimento não era possível formar líderes de transformação social como antes cria, foi provar a afirmação do seu pai que disse: “afinal: não estamos sozinhos”. Durante trinta anos de carreira, muita coisa não deu certo, cada descoberta sua, era mais um inimigo, embora seu nome estivesse na história, pelos prémios ganhos, lhe faltava a consciência do dever comprido.
Terminada sua carreira de docência, não se apressou em ir ver os seus filhos no Ocidente, e preferiu pegar voo, percorrer 2 000 quilómetros para casa onde se viu nascer. “Bons filhos sempre voltam a casa”, quem não sabe?
Logo que chegou, o vazio deixado pelos seus pais permanecia cicatrizado no rosto da Dona Vera, que coordenava todos os trabalhos, inclusive os hotéis que recebiam visitantes nos finais de ano e nos períodos de pascoa. A maioria deles, eram pessoas estranhas com uma altura de um ou um metro e meio, e com voos transparentes. Poucas vezes, o lugar acolhia também reuniões de militares, astronautas e cientistas.
Embora fosse de desconfiar, o lugar nunca recebeu qualquer equipe da imprensa ou talvez um jornalista aventureiro.
Dia seguinte pela manhã, chamou a empregada, e disse:
- Dona Vera. Há quanto tempo a senhora não visita seu país?
- Desde que aqueles ladrões mandaram patrão caçar homens baixinhos lá fora.
- Faz muito tempo. Já que reformei vou ficar aqui uns meses. Pode tirar férias.
A Dona Vera hesitou, mas não teve escolha. O Sr. Fastudo queria ficar sozinho, se ocupar em apreciar objectos antigos na companhia da sua solidão que lhe trouxera lembranças de tudo quando havia vivenciado com seus pais.
Além do mais, ele aceitou o repouso e, a relutante isolação, não por falta de condições de se ocupar com os prazeres da natureza ou passar com a sua família à quem não informou da viagem, mas porque o corpo mostrava sinais dos seus limites e precisava de respostas para as suas assombrações criadas logo ao desaparecimento dos seus pais.
Foi essa sua motivação para nas horas extras das longas três décadas da sua carreira se dedicar ao estudo das viagens redimensionais, não esperar pelo milagre e muito menos dos resultados da polícia de investigação, que até 20 anos nada havia anunciado.
Ele ficou sozinho naquela mansão grande, naquele lugar pequeno, quase sem moradores, com poucos factos policiais, e sem registos de acontecimentos anuais. Até porque nos países em desenvolvimento todas atenções estão viradas nas cidades, onde estão concentrados os políticos.

Seu primeiro exercício foi penetrar no âmago do seu interior, e questionar-se sobre o motor que o impeliu da sociedade em que estivera inserido e começou a contestar a validade de toda a sua actividade.
Na noite seguinte foi pegar no seu telescópio de astrônomo, que o acompanhou com a raridade estimação na sua adolescência, mas também, que na sua ausência, seus progenitores usavam para ver as estrelas, nas noites do céu encoberto. Numa casa de cientistas, o gesto era ritual da família, e a própria localização da casa ajudava. Nesse olhar, sonhou com outro mundo, o planeta terra não teve resposta para explicar a habitação dos seus pais.
O mundo novo sempre desprezou a individualidade humana. Quando a notícia sobre o silêncio do Sr. Fastudo escapou aos medias, foi classificado como ridículo por ter fechado hospedagem. Não queria nenhum contacto com os psicólogos e sociólogos, que exploram as nossas dores para abastecer suas teses.
Sentia-se como um homem pronto para terminar sua legação no percurso da vida, sua inspiração durante décadas na sua carreira foi impulsionar as mudanças tecnológicas para que da sua faculdade saísse líderes capazes de controlar transformação social. Mas inútil porque não havia ainda honrado a promessa que se fez quando na sua ausência seus pais foram entregues a eternidade.
Seu pai era cientista que realizava pesquisas pentadimensional no Centro de Estudos Dimensionais (CED) e desenvolvera métodos de viajar entre as dimensões, após a descoberta do oitavo planeta, ele contou aos seus colegas sobre as experiencias vividas na lua. A alta tecnologia que imperava estava em perigo pela descoberta do novo planeta.
Até ai nada de errado era visível, mas as relações no seu trabalho começaram a mudar quando a notícia foi parar na imprensa.
Noutro ano, em uma noite de aniversário de casamento, o astronauta resolveu surpreender sua amada esposa com uma viagem no espaço.
Conta-se que o comandante Relvo, de patrulha dimensional não autorizou a viagem, mas como o noivo astronauta armazenava todos os códigos das naves e todas as chaves estavam sob sua guarda, com ou sem autorização do Relvo podia efectuar qualquer viagem no espaço.
Não se sabe ao certo o porque nunca voltou. Há tantas versões, mas nenhuma delas mereceu a consideração do filho Sr. Fastudo, que considera dogmas factos por ele não comprovados.
O mesmo livro, cada um lê de acordo com o seu interesse. Quando a polícia negou se pronunciar sobre o desaparecimento do casal à imprensa, cada repórter escreveu de acordo com a sua cegueira. As reportagens saídas nas TVs sobre cientistas falavam do casal que cometeu suicídio no espaço. As manchetes nos jornais escreviam sobre o casal de cientistas que se perdeu na recém planeta descoberta. O casal sequestrado pelos extraterrestres, na rádio. Todas aquelas publicações datadas no mês - primeiro da primeira década do ano três mil, pareciam uma fixação digna de análise, como ele dizia “onde há três vozes, há duas mentiras”. Para não falar das redes sociais que colocavam possibilidade de o casal ter abandonado Planeta Terra para viver no oitavo universo que havia descoberto. Podiam estar certos, tinha ar e água!

Esse é principal distúrbio das tecnologias de informação, que buscam formar e conectar humanos, mas nem elas mesmas se informam e muitos menos estão conectadas. Para Sr. Fastudo isso não era nenhuma surpresa e não se deixava contaminar. O homem escolhia o que ler, ouvir e ver, e no fim, tinha cérebro para compreender.
Dias passaram, a fuga de informação sobre seres de outro planeta era cada vez mais comum, já cegava nos holofotes públicos. Estas conversas lhe interessavam, não perdia vaga de acompanhar as reuniões secretas de militares, astronauta ou cientistas pela TV de 52 polegares que estava no centro de sala ornamentada pelos objectos da mais alta tecnologia, e pintada de poeira, que descrevia a ausência da Dona Vera.
O Sr. Fastudo estava lá, naquela casa que o viu nascer. Voltou para seu escritório caseiro. Era uma sala sem papéis, e nem livros e com apenas duas cadeiras. Tudo reflectia sua adolescência. Quando tinha dez anos seus pais criam no seu autodomínio, e como fazem os de hoje, davam lhe televisores como adornos das cabeceiras, incontáveis canais a cabo, e telemóveis que facilitavam as viagens virtuais.
Eles haviam dito que as bibliotecas da cidade eram grandes mas não maiores que a internet. Guardavam livros em infinitésimas estantes. E reservavam mais vantagens por considerar, que os seus corredores não enchem, basta um dedo na tecla que tudo vem ao ecrã. Eram seus discursos em louvor aos livros electrónicos, desses que percorremos as páginas sem folhear.

Mas não encontrou naquela sala qualquer objecto que pudesse ajudar a explicar a ida sem volta dos seus progenitores. Voltou com seu telescópio para mais uma visão na varanda, como era o seu costume, viu algo como estrela cadente a subir em direcção a lua. Mais isso, em ano três mil já era natural. Não viu nada de especial.
No domingo, noticiário, das 20 horas, foi anunciado o sumiço do último extraterrestre que ficava no laboratório do CED para cientistas que se dedicavam na identificação dos extraterrestres.
Na segunda-feira, o homem acordou de súbito, suas visões unidas com o noticiário chegavam a uma conclusão: não foi estrela que eu vi, são seres que tem informações que eu preciso.
Sem mais delongas, o Sr. Fastudo ligou para o comandante Relvo, que esteve lado a lado com o seu pai.
- A informação que vi na TV é verdadeira?
- A CED não está envolvida em nenhuma espécie de camuflagem acerca da existência de extraterrestre. Portanto Sr. não é verdade.
- Obrigado comandante, pensei que pudesse ajudar.
Uma hora depois o Relvo, volta a ligar e sugere um encontro com o Relvo.
- Não precisa, comandante…
- Não é uma escolha. Você falou de me ajudar e eu preciso – interrompeu a forçou o encontro.
Trinta minutos depois, viu as luzes da sala a mudarem de cor. A sua atrás viu uma névoa a se abrir, configurando uma espécie de porta, de onde saiu um exército, comandado pelo Relvo.
- Como entraram aqui? - berrou o Sr. Fastudo.
- Você não acreditaria se lhe disséssemos, e podemos lhe garantir que não está alucinado, mas o importante, Sr. Fastudo é que contamos com a tua colaboração para provar ao contrário as crenças do seu pai.
O encontro durou duas horas, o homem de 70 anos foi um mês depois encontrado morto na varanda pela Dona Vera.

Por Nelson Mucandze

também em http://www.contosdeterror.com.br/index.php/contos-de-fc/523-a-redencao.html

Sem comentários:

Enviar um comentário