terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Lembranças: Talento na Juventude e na Velhice

Nada menos exacto do que supor que o talento constitui privilégio da mocidade, assim escrevia ou escreveu Júlio Dantas, in "Páginas de Memórias". Negando que nem da mocidade, nem da velhice se adquire o talento.
“Não se é talentoso por se ser moço, nem genial por se ser velho. A certidão de idade não confere superioridade de espírito a ninguém”, são palavras que merecem uma imparcial reflexão, após isso pude trazer em meu subconsciente a ideia de que pouco a idade contribui para o nosso sucesso.
Em suas memorias
, Dantas avança com muita naturalidade que… ‘Ser idoso não quer dizer que se seja necessariamente intolerante e retrógado; e engana-se quem supuser que a mocidade, por si só, constitui garantia de progresso ou de renovação mental. As grandes descobertas que ilustram a história da ciência e contribuíram para o progresso humano são, em geral, obra dos velhos sábios; e a mocidade literária, negando embora sistematicamente o passado, é nele que se inspira, até que o escritor adquire (quando adquire) personalidade própria’.
Este pensamento do médico, político e diplomata português, que se distinguiu como um dos mais conhecidos intelectuais portugueses das primeiras décadas do século XX foi aceite pelo meu pensamento, e na busca de prova, viajando um pouco para o passado deparei me com grandes homens que só lutaram pela revolução após, sepultar o conforto ansiado pela juventude. Me falta paciência para citar exemplos. Aliás, é uma forma de te convidar a uma reflexão.
(...)A mocidade, em geral, não cria; utiliza, transformando-o, o legado que recebeu. Juventude e velhice não se opõem; completam-se na harmonia universal dos seres e das coisas. A vida não é só o entusiasmo dos moços; nem só a reflexão dos velhos; não está apenas na audácia de uns, nem apenas na experiência dos outros; realiza-se pela magnífica integração das virtudes contrárias, sem a qual não seria possível, em todo o seu esplendor, a marcha da humanidade.Que se ganha em cavar um abismo entre mocidade e velhice, se uma é, fatalmente, o prolongamento da outra; se o que passa de mão em mão é, afinal, o mesmo facho aceso, como na corrida ritual da Grécia antiga; e se, bem vistas as coisas, não está de nenhum modo provado que os novos sejam intelectualmente os mais novos, e os velhos os mais velhos?’
 (...) Como admitir o divórcio entre novos e velhos - invenção antinatural dos conventículos literários de todos os tempos -, se os velhos têm nas novas gerações, penhor radioso do futuro, o instrumento de compreensão e de difusão da sua obra, e se os novos devem aos velhos a formação do seu espírito, a educação da sua sensibilidade e a opulenta capitalização de riquezas da língua em que se expressam?’

Assim termino a minha reflexão, reiterando que a paz entre idades sucederá um dia, decerto, à paz entre as nações - quando a velhice egoísta reconhecer, finalmente, que não deve menosprezar os moços, antes facilitar-lhe o caminho da vida, e quando, por seu turno, a juventude impaciente chegar à convicção de que não é atropelando nem injuriando que se vence, e de que, quando os jovens se instalaram no planeta - já os velhos o habitavam.

3 comentários:

  1. Tens uma boa visao da juventude, esse texto serviu de convite para mim, me levando a pensar sobre o estagio da juventde na sociedade actual

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  2. eh nossa missao, imortalizar todas as ideias construtivas. resgatar tudo aquilo que edifica

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  3. Como admitir o divórcio entre novos e velhos? nao se admite. impossivel, as duas faixas formam o mundo

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