sexta-feira, 4 de março de 2011

O inusitado sonho de Bartolomeu


Um homem branco, de cerca de trinta e cinco anos, portando camisa pólo bege, de cabelo preto bem aparado, com um rosto fechado, quebrou o clima de harmonia e disse agressivamente para o mestre:
— Meu grande sonho é estrangular minha esposa. — Ele não estava brincando. Parecia que estava realmente prestes a cometer um assassinato. O mestre não deu resposta, apenas esperou que o agressor continuasse expurgando sua violência. Ele continuou: — O que merece uma mulher que trai o marido?
Em vez de abrandar a ira do agressor, parece que colocou mais combustível:
— Você também é um traidor?
O agressor não teve dúvida. Deu-lhe um soco que o jogou longe e lhe causou sangramento no lado esquerdo do lábio.
Quando muitos tentavam linchar o agressor, o mestre conteve a violência da multidão:
— Não, não machuquem esse homem. Levantou-se, aproximou-se dele e explicou:
Podemos não trair com os órgãos sexuais, mas traímos no pensamento, nas intenções. Se não traímos quem amamos, traímos a nós mesmos. Traímos nossa saúde, nossos sonhos, nossa tranqüilidade. Você nunca traiu ou se traiu?
O agressor ficou mudo, apenas meneou a cabeça, confirmando que também era traidor. Diariamente se traía com milhares de pensamentos mórbidos. Sua agressividade era a ponta do iceberg de um traidor. Quando abaixou a guarda, o mestre o bombardeou mais intensamente:
Por acaso sua esposa é sua propriedade? Se não é, por que quer destruí-la ou se destruir por causa dela? Quem disse que, por traí-lo, ela diminuiu sua condição de ser humano, que teve uma história, chorou, amou, irou-se, frustrou-se? Se não é capaz de perdoá-la e reconquistá-la, por que não diz simplesmente ”Sinto muito, você me perdeu”?
O homem saiu de cena completamente atordoado. Era difícil saber se ele conseguiria conquistar sua esposa ou deixar-se conquistar por ela, mas não mais a assassinaria. Fiquei impressionado com sua reação. Será que ele provocara o agressor para que ele o esmurrasse e, assim, abrisse uma janela na sua mente homicida e pensasse em outras alternativas? Não é possível! As pessoas que estavam próximas o fitavam como se estivessem assistindo a um emocionante filme de ação.
Não bastasse esse incidente, chegou a vez de o mestre perguntar a Bartolomeu qual seu grande sonho. Creio que não era o momento nem uma boa idéia fazer tal pergunta. Boquinha de Mel tinha uma irresistível atração pela irreverência.
Olhou para ele e falou entusiasmadamente, quase caindo ao chão:
— Meu grande sonho, chefinho? Vodca russa! E... e... e tomar banho... — Quando todos pareciam felizes com o banho que desejava tomar, desapontou-os: — Tomar banho num... tonel de uísque escocês. — Nesse momento, caiu sentado. Vivia duro, e estava em estado de êxtase ao pensar nesse incomum banho.
Não me agüentei. Comecei a dar risada do miserável e da cara do sábio que eu começara a seguir. Mas fiquei surpreso com meu sarcasmo. Nunca imaginei que na minha mente houvesse uni prazer sublimado pela desgraça alheia. Pensei comigo: ”Dessa vez ele embarcou num bote que estava indo a pique”.
Antes que ele desse alguma resposta, dona Jurema apareceu e ameaçou dar outra bengalada em Bartolomeu. Ela também ouviu qual era seu grande sonho e ficou indignada. Agora, não o chamou de tarado, mas de outros adjetivos:
— Prepotente! Presunçoso! Alcoólatra inveterado! Estrume social!
O Boca de Mel, que aparentemente não tinha cultura acadêmica, gostou dos adjetivos. Emendou:
— Obrigado pelos elogios. Mas serve também um barril de cachaça brasileira ou de tequila mexicana.
O cara era incorrigível. Bebia há mais de vinte anos sem controle. Há dez anos andava de bar em bar, de rua em rua, no puro alcoolismo. Eu tinha a convicção de que o vendedor de sonhos jamais conseguiria dar uma lição a esse miserável fedido. Até porque nenhum pensamento lúcido entraria na sua mente infestada de extraterrestres. Talvez meu mestre optasse por dar lhe uma bronca sem grandes pretensões educacionais, apenas para vomitar sua raiva, ou então o enviasse para algum grupo dos Alcoólatras Anônimos, e se livrasse dele rapidamente. Mas para meu espanto, ele elogiou a sinceridade do moribundo:
— Muito bem! Parabéns pela sua honestidade.
Tentei mexer nos ouvidos para ver se estava ouvindo direito. Não era possível que ele tivesse enchido a bola do bêbado. O álcool na cabeça, somado ao elogio que recebeu, multiplicaram a euforia do miserável. Revestido de um estado de auto-estima que fazia anos não sentia, olhou orgulhosamente para algumas pessoas que há pouco o tinham empurrado. Soltou um estridente grito de guerra: ”Hurruuu!”. E teve a ousadia de dizer:
— Preservo a natureza. Sou movido a álcool. — Em seguida, esfregou o dedo indicador direito no esquerdo e completou: — Sou assim com o homem. Esse é o cara. Posso dar um passeio na sua aeronave, chefinho? — Após se convidar para um vôo extraterrestre, tropeçou em duas pessoas e quase caiu.
Eu, que sempre fui intolerante, pensei: ”Mande esse cara para um manicômio”. O mestre olhou para mim. Pensei que estivesse lendo meu pensamento e seguindo minha recomendação. Mas, para meu assombro, disse algo que quase me fez desmaiar. Tocou o ombro esquerdo do moribundo e disse-lhe com uma voz firme:
— Venha e siga-me! E eu o farei embriagar-se com uma bebida que você não conhece.
Fiquei atônito. Tentava mexer com a cabeça para ver se tinha entendido direito o que havia ouvido. O bêbado, que estava fraco tanto porque havia dançado como porque há anos era turbinado pelo álcool, mergulhou no seu tonel de uísque sem beber. Imediatamente retrucou:
— Bebida que não conheço? Duvido! É vodca das bravas?
Fiquei constrangido com a santa irreverência do alcoólatra. Mas o vendedor de sonhos achou graça, sorriu. Conseguia relaxar em situações tensas. Olhou para mim e parecia querer dizer: não se preocupe, eu vim para os complicados.

Meus neurônios entraram em estado de choque. Pensei em debandar. Seguir uma pessoa excêntrica, um estranho no ninho social ainda vai, mas seguir lado a lado de um bêbado gozador era demais. Riscos inimagináveis se sucederiam.


Augusto Cury (Retirado do livro, vendedor de Sonhos)

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