quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

A carta de despedida de Obama

Barack Obama deixou uma carta de despedida na página oficial da Casa Branca, na qual agradece, uma vez mais, o contributo e influência que os norte-americanos tiveram no seu mandato. 

 Obama, que deixa o cargo ao fim de oito anos e que será substituído por Donald Trump, relembra as vitórias, mas também as derrotas vividas durante o período em que esteve em frente à Casa Branca.

 Acarta é endereçada à Trump, mas também, serve de reflexão sobre o que foram os anos de Obama em Washington.

 A seguir, a carta na íntegra:

  “ Caros americanos:
    É tradição que o Presidente em função dos Estados Unidos deixe uma carta de despedida na Sala Oval para o presidente eleito que vai tomar o seu lugar. A carta serve para partilhar o que sabemos, o que aprendemos e qualquer conhecimento que ajude o sucessor a enfrentar a grande responsabilidade associada ao posto mais alto da Nação e liderança do mundo livre.
    Porém, antes de deixar o recado para o 45.º Presidente, quero deixar um último obrigado pela honra que foi servir como o 44.º. Porque tudo o que aprendi no tempo em que estive em funções aprendi convosco. Fizeram de mim um Presidente e um homem melhor.
    Durante estes oito anos, foram a fonte da bondade, resiliência e esperança, onde encontrei força. Vi vizinhos e comunidades ajudarem-se mutuamente durante a pior crise das nossas vidas. Enlutei-me com famílias em busca de respostas – e encontrei fé numa igreja em Charleston.
    Encontrei forças na esperança de jovens licenciados e novos oficiais militares. Vi os nossos cientistas ajudarem um homem paralisado recuperar o toque e guerreiros feridos, dados como mortos, voltarem a andar. Vi americanos cujas vidas foram salvas porque, finalmente, tiveram acesso a cuidados médicos e famílias cujas vidas mudaram porque os seus casamentos foram reconhecidos como iguais aos nossos. Vi as mais pequenas crianças lembrarem-nos, através das suas acções e generosidade, da nossa obrigação de ajudar os refugiados, ou lutar pela paz, e, acima de tudo, tomar conta uns dos outros.
    Vi o povo americano, em toda a sua decência, determinação, bom humor e bondade. E nos vossos actos de cidadania, vi o nosso futuro desabrochar.
    Todos nós, independentemente do partido, devemos empenhar-nos nesse trabalho – o satisfatório trabalho da cidadania. Não só quando há eleições, não só quando os nossos interesses estão em jogo, mas durante o tempo de uma vida.
    Estarei lá convosco ao longo do caminho.
  Quando o progresso parecer lento, lembrem-se: a América não é um projecto de uma qualquer individualidade. A palavra mais forte da nossa democracia é: 'Nós'. 'Nós, o povo'. 'Nós vamos ultrapassar'.
    Sim, nós podemos."

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A defesa do prisioneiro

A morte da bela miss Ena Garnier, ou pelo menos as circunstâncias dessa morte, tais como foram conhecidas pelo público, e o fato de ter o assassino, capitão John Fowler, recusado toda e qualquer defesa durante o inquérito policial, suscitaram emoção intensa, e a fermentação dos espíritos atingira ao auge quando o irmão do criminoso declarara que essa defesa viria ao seu tempo, esmagadora e indiscutível. Enfim, a curiosidade do público ainda mais se exacerbou quando se soube que o capitão Fowler dispensara a assistência judiciária, reservando-se o direito de fazer sua própria defesa.

No dia do julgamento, o caso, habilmente apresentado pelo promotor, parecia encaminhar-se apara uma condenação — pois restara demonstrado que o acusado estava sujeito a crise de ciúmes —, quando o acusado obteve a palavra.

Era um homem cujo aspecto não poderia passar ignorado em uma multidão: tez bronzeada, olhos enérgicos e estatura de atleta. Sem hesitar, com segurança que mal disfarçava uma profunda melancolia, ele disse:

— Começo por agradecer a generosidade dos senhores advogados, que me ofereceram seus serviços; se os recusei, não foi por que confie mais em minha eloquência, mas, ao contrário, porque julgo que é meu dever trazer a este tribunal unicamente uma exposição de fatos, simples e clara, sem ornamentações de retórica nem efeitos de orador. Assim, os senhores juízes terão diante de si a humilde verdade —a humilde e dolorosa verdade —e poderão formular a sentença perfeita.

“Sou um soldado. Nunca fui outra coisa. Toda a minha vida tem sido dedicada ao serviço do meu país e à honra de sua bandeira. Alistei-me aos quinze anos e obtive minhas primeiras divisas na guerra sul-africana. Por isso, quando começou a guerra com a Alemanha, destacaram-me de meu regimento para me colocarem como instrutor no primeiro regimento de escoceses então organizado em Radchurch, no Essex.

“Foi aí que conheci miss Ena Garnier e confesso que nunca imaginara beleza mais perfeita. Eu sempre acreditara que a expressão ‘apaixonar-se à primeira vista’ fosse uma fantasia de romancistas, mas, desde o momento em que conheci miss Garnier, tive apenas uma ideia, um desejo, uma ambição: — fazê-la minha esposa. Fui tomado de uma paixão frenética, irresistível como um instinto, e todo o mundo, com tudo quanto contém, seria para mim sem importância se eu não pudesse obter o amor daquela criatura. Um só sentimento sobrenadava em meu delírio: — minha honra de soldado.

“Notei, porém, que miss Ena Garnier não era insensível a minhas atenções. Tive ocasião de vê-la muitas vezes na casa do sr. Murreyfield, esquire local, onde era professora, havia já um ano, e tratada carinhosamente como pessoa da família. Parecia-me natural sua simpatia — não por minhas qualidades, mas pelo prestígio de meu uniforme — porque Ena manifestava a cada instante o mais ardente patriotismo: sua voz vibrava de cólera ao falar nas atrocidades cometidas na Bélgica. Eu desejava desposá-la imediatamente; ela, porém, exigiu que só após o término da guerra fosse efetuada a cerimônia.

“Tive, portanto, muito tempo para observar-lhe gênio e as originalidades, que me pareciam encantadores. Seu esporte favorito era o da motocicleta, que manobrava a primor fazendo longos passeios, sozinha, pelos campos. Caprichosa, zombeteira, exaltava minha paixão, sujeitando-me a provações sem conta. Eu tudo suportava. Aquele despotismo inútil parecia-me natural em uma mulher jovem, que se sabe muito amada. Uma dessas provações ‘para me pôr de castigo’ — como dizia — era proibir-me de acompanhá-la em seus passeios de motocicleta. No inquérito, falou-se muito em meu ciúme... Como poderia eu deixar de o ter, apaixonado como estava, diante dos caprichos inexplicáveis de Ena? Verifiquei, pouco a pouco, que ela conhecia muitos oficiais das guarnições de Chelmsford e Colchester. E a motocicleta levava-a, durante horas inteiras, só Deus sabe aonde...
“Por vezes, o raciocínio demonstrava-me que era uma loucura comprometer assim minha existência e minha alma por uma criatura que mal conhecia. Porém, Ena sorria — não havia raciocínio que resistisse a seu sorriso.

“Um dia, encontrei sobre a mesa de Ena uma fotografia de homem, tendo nas costas um nome: Huberto Vardin. E o que mais me impressionou foi que o cartão parecia usado como o dos retratos de namorado, que algumas moças trazem ocultamente consigo durante meses... Quando lhe perguntei de quem era aquele retrato, Eva perturbou-se; mas, recobrando prontamente o domínio de seus nervos, afirmou, contra toda a verossimilhança, que não sabia, e que o cartão aparecera sobre sua mesa sem que lhe pertencesse. Tivemos um arrufo. Ela, porém, era tão loucamente sedutora que em pouco eu lhe pedia perdão de minhas suspeitas.

“Na semana seguinte, fui chamado para servir no Ministério da Guerra. A minha posição, embora subalterna, envolvia grande responsabilidade. Tive que ir morar em Londres e meu serviço absorveu-me até os domingos. Somente um mês depois, pude obter alguns dias de licença... malditos dias que consumaram a minha desgraça.

“Parti para Radchurch. A estação da estrada de ferro fica a cinco milhas da vila e Ena veio a meu encontro. Era a nossa primeira entrevista a sós depois que eu lhe dera toda a minha alma e, no enlevo de meu amor, eu confiei-lhe um segredo que não me pertencia, segredo da maior importância... Vou expor-lhes concisamente esse fato, pelo qual me considero mais criminoso do que pelo assassinato daquela criatura. Revelei-lhe um segredo de que dependia o êxito de uma batalha e a vida de milhares de homens.

“Ela impacientava-se com as delongas da guerra, lamentava-se, quase chorava por ver nosso exército detido tantos meses diante das linhas alemãs. Procurei demonstrar-lhe que de fato eram nossas linhas que detinham o inimigo.

“— Mas, então, nada poderemos fazer para libertar a França e a Bélgica? —exclamava ela. — Ficamos eternamente inertes em nossas trincheiras? Oh, não! Dize-me alguma coisa que alimente minha esperança. Há momentos em que parece que meu coração vai estalar...

“— Descansa — disse-lhe sorrindo. — Dentro em pouco terás boas notícias.

“— Sim? — disse ela, segurando-me pelos ombros com entusiasmo quase delirante. — Oh, meu querido!... Conta-me tudo. Quando será isso?

“— Breve.

“— Ora! Com a fleuma do Estado Maior, ‘breve’ bem pode significar ‘para o ano’.

“— Não. Muito menos.

“— Um mês? Ah, meu Deus! Eu não tenho paciência para esperar tanto!...

“— Talvez não tenhas que esperar nem uma semana...

“Ela apertou-me as mãos com alegria febril.

“— Que felicidade! E quem vai atacar... Nós ou os franceses?

“— Nós e eles.

“— Ah, compreendo: a ofensiva vai partir do ponto em que os dois exércitos se juntam.

“— Não; aí, não.

“— Como não? Não se trata de uma ação conjunta?

“ — Tolinha disse-lhe eu, ingenuamente. — Supõe que os ingleses avançam no setor de Ypres e os franceses no de Verdun... Embora centenas de léguas os separem, a ação não deixa de ser combinada...

“— Ah, compreendo! — exclamou ela com grande alegria. — Avançam nas duas extremidades da linha, ao mesmo tempo, para que os boches[1] não saibam para que lado enviar reforços...

— Exatamente... avanço simulado em Ypres e verdadeiro diante de Verdun...

“Nesse momento, compreendi que falara demais e detive-me com tal expressão de susto que ela tratou de me tranquilizar.

“— Oh, querido!... Será mais fácil arrancar-me a língua do que obrigar-me a repetir uma palavra do que me disseste.

“Que razão tinha eu para duvidar de sua sinceridade? Foi quase tranquilo que montei a cavalo para ir ao campo de Pedley-Woodrow levar ao coronel Worsal uma carta do Ministério. Não cheguei até lá. No caminho encontrei o ordenança do coronel, entreguei-lhe a carta e voltei a procura de Ena com a sofreguidão de um enamorado.

“Entrando em casa do sr. Murreyfield, a criada informou-me de que ela subira para seu quarto. Fora vestir-se, depois de ter mandado preparar a motocicleta. Pareceu-me estranho que ela fosse dar um passeio durante minha visita, que devia ser tão curta. Sentei-me na sala à sua espera e, olhando distraído para o mata-borrão, que estava sobre a secretária, pasmei. Havia sobre o papel vermelho um nome que, embora aparecesse às avessas, saltou-me logo aos olhos, o nome de Huberto Vardin, escrito com a letra resoluta de Ena. Evidentemente, ela escrevera seu endereço, porque após o nome havia as iniciais S. W., que designam uma circunscrição postal de Londres.

“Senti todo o sangue gelar-me nas veias... Ela escrevia àquele homem que afirmava não conhecer...

“Senhores, não tento explicar minha conduta. Num ímpeto de furor, meti mãos à secretária e arrombei-a. A carta ali estava, fechada... não tive escrúpulos em rasgar o envelope... ação ilegal, irregular bem o sei. Mas num acesso de ciúme desatinado eu não refletia. Queria ler aquela carta.

“As primeiras palavras fizeram-me tremer de alegria. ‘Meu caro sr. Vardin’...

“Não era uma carta de amor. Foi o fique mais me interessou, tanto que já ia fechá-la, arrependido de minha violência, quando uma palavra quase no fim da página feriu-me o olhar: feriu-me... é bem o termo — como a picada de uma víbora.

“Essa palavra era “Verdun”.

“Só então notei que a carta era escrita em alemão. Cambaleando, lívido de surpresa e de horror, li-a toda. Era uma narração completa do que eu lhe dissera, acompanhada por outras informações sobre o movimento de tropas nos arredores. Terminava assim:

“‘Espero obter de meu informante a data exata, mas julgo prudente aproveitar o correio holandês de hoje para dar a von Starner estas informações, porque se trata de uma batalha de grande importância. Vou em pessoa levar esta carta a Colchester.
Como sempre sua serva fiel Sophia Heffner’.

“Minha primeira impressão foi a de um aniquilamento total... Aquela mulher que adorava, minha noiva, era uma alemã, uma espiã... Mas logo todo o meu pensamento voltou-se para o perigo criado por minha imprudência... Ouvi os passos da miserável na escada. Ao ver-me diante da secretária partida, tendo nas mãos a carta, ela fez um gesto que poderia ser de susto... ou de cólera. Toda a sua fisionomia transtornou-se e, sem uma palavra, num ímpeto de fera, atirou-se a mim tentando arrancar-me o papel. Eu a repeli com força. Atirei-a sobre o canapé e toquei a campainha. O sr. Murreyfield acudiu logo e ficou apavorado ao conhecer a situação. E disse-me com ansiedade:

“— Creio que o senhor não hesitará em entregá-la às autoridades.

“— Nem um minuto — respondi. O que lhe peço é que não a deixe fugir enquanto eu vou avisar prevenir o coronel Worsal, e pedir-lhe uma escolta para levá-la ao acampamento.

“—Vou fechá-la no seu quarto.

“— Não é preciso — disse ela, que parecia ter recobrado toda a calma. — Comprometo a não arredar pé daqui. Nenhum perigo me ameaça. Este belo capitão não me pode denunciar sem confessar ao mesmo tempo que traiu um segredo confiado a sua honra; terá sua carreira cortada... portanto.

“Eu a interrompi rispidamente, dizendo ao sr. Murreyfield:

“— Faça-me o favor de levá-la ao seu quarto.

“Ena foi a primeira a encaminhar-se para o corredor. Mas, chegando à porta, deu um salto para a porta da rua, correu à calçada e alcançou a motocicleta, que ali estava. Precipitamo-nos também e, antes que ela pusesse o motor em movimento, seguramo-la pelos braços. Como uma fera, a alemã voltou-se e mordeu o sr. Murreyfield num pulso. Não conseguimos dominá-la a sem grandes esforços. Foi preciso arrastá-la até a escada, espumando, com os olhos faiscantes. Quando a fechamos afinal, ela começou a soltar verdadeiros uivos de furor.

“— A porta é sólida — disse o sr. Murreyfield, detendo com o lenço o sangue que lhe corria do ferimento. — Em todo o caso, ficarei aqui, no corredor, até que o senhor volte... ficarei com um revólver.

“Corri a Pedley. O coronel partira para inspecionar os postos do litoral. Isso causou-me um primeiro atraso. Depois, todas as formalidades a preencher... assinatura do juiz na ordem de prisão, designação da escolta...

“Alucinado pela impaciência, meti o cavalo a galope e voltei sozinho, distanciando-me de todos. Era já noite fechada. A estrada de Pedley a Woodrow corta a de Colchester a meia milha de Radchurch.

“Mal ultrapassei essa encruzilhada, ouvi o ruído de uma motocicleta lançada a toda a força. Detive-me e observei o caminho atento. O veículo vinha sem lanternas e com velocidade louca. Mas, quando passou diante de mim como um relâmpago, vi, nitidamente, a pessoa que ia pilotando. Essa mulher que eu amara, sem chapéu, com os cabelos ao vento, os olhos fitos e toda a face contraída num ricto de alegria satânica, parecia uma das Valquírias de sua terra natal... Ia já longe, na estrada de Colchester, quando imaginei as consequências de sua fuga. Se ela conseguisse alcançar o cúmplice, a vitória de nossos aliados seria impossível, e milhares de soldados seriam sacrificados inutilmente. Empunhei o revólver e disparei-o por duas vezes sobre a silhueta que se destacava nitidamente no horizonte enluarado... Ouvi um grito, o ruído da queda da motocicleta; depois... o silêncio.

“Não preciso dizer mais nada. Os cavalheiros sabem o resto. Encontrei Sophia Heffner caída de um lado da estrada, morta. Uma das balas de meu revólver a alcançara na nuca. Quando Murreyfield chegou, correndo, arquejante, contou-me que ela fugira pela janela, descendo, com audácia incrível, por um cano das águas pluviais, e somente o ruído da motocicleta, partindo, denunciara sua fuga. Enquanto eu ouvia confusamente sua narração, chegaram os soldados, que vinham prender aquela mulher. E, por ironia do destino, foi a mim que prenderam em seu lugar.

A defesa do acusado

No inquérito policial, ficou estabelecido que o ciúme era a causa do crime. Eu não neguei tal causa, nem apresentei eventuais testemunhas para refutá-la. Era, aliás, o meu desejo que todos acreditassem justamente nisto. A hora da ofensiva francesa ainda não havia chegado, e eu não podia me defender sem revelar o conteúdo da carta. O segredo e o silêncio se impunham. Confesso a minha gravíssima culpa. Mas não a que me impingem. Eu seria responsável pela morte de meus próprios compatriotas se houvesse deixado aquela mulher escapar.

Estes são os fatos, cavalheiros. Deixo o meu futuro em suas mãos.  Caso os senhores deliberem pela minha absolvição, alimentarei a esperança de servir ao meu país de forma tal a expiar o pecado de minha enorme indiscrição. E espero, também, que fiquem definitivamente extintas as lembranças que tanto me afligem. Caso os senhores me condenem, eu estarei pronto a enfrentar a consequência que os senhores julgarem adequada à punição de minha conduta.


Por Sir Arthur Conan Doyle
(1859 - 1930)
Mais aqui

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Em todo o lado, só vemos rabos

Durante as grandes tempestades da Alemanha medieval, o pouco que havia a fazer por uma casa de família pobre era pôr a mulher à porta, de rabo ao ar. Era o equivalente, acreditavam, a mostrar alhos a vampiros: o diabo fugia. É que apesar do poder da transmutação, esta é a única parte do corpo humano que ele, teoricamente, não consegue imitar. E numa casa com um rabo à porta, o diabo não entra.

O rabo é uma dádiva pouco comum entre os animais da criação e que está a ser cada vez mais festejada (não será provavelmente esta exclusividade a principal razão). O dos babuínos, rosado e pelado, não conta — não é mais do que um calo para se poderem sentar. O mais surpreendente exemplo será o do gado belga azul, bois com músculos tão desenvolvidos como se passassem o dia a tomar esteroides. E mesmo assim, não se pode chamar aos seus músculos traseiros “rabo”, pelo menos na função que o nosso, humano, cumpre — ter um efeito propulsor no movimento, através dos músculos das nádegas, e permitir o equilíbrio para que nos possamos manter de pé, por exemplo.
Mas há que ultrapassar esta visão funcionalista, que terá pouco que ver com a prestação de Nicki Minaj em “Anaconda” ou com a edição da revista Paper em que Kim Kardashian serve champanhe no próprio rabo, num truque arriscado de equilibrismo — uma recriação da fotografia com o mesmo conceito feita pelo mesmo fotógrafo, Jean-Paul Goode, em 1976.

O traseiro de Beyoncé — que dá nas vistas desde o início da sua carreira — não deve estar em vídeos como o de “Partition” para dizer “sou essencial para que esta menina consiga andar” e Meghan Trainor, quando canta “I’m bringing booty back, Go ahead and tell them skinny bitches“, não está a orar a nenhum Deus da fertilidade. Como diria Queen B ainda na era Destiny’s Child: este tempo é bootylicious.

“Tenho 99 problemas mas o meu rabo não é um deles”, garante Beyoncé numa versão própria de uma música do marido, Jay Z.

Uma História do rabo

O rabo tem vindo a revelar-se com menos vergonha desde os anos 80 e hoje vive o seu momento. Até mais, talvez, do que os decotes. Antes disto já o homem pré-histórico apreciava o rabo feminino por uma questão de seleção natural — as ancas largas e o rabo grande e redondo são indicativos da presença de juventude, estrogénio e gordura suficiente para gerar um filho. Que o diga a estatueta do paleolítico, encontrada na Áustria e batizada Vénus de Willendorf, associada à fertilidade.
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A Vénus de Willendorf. Fonte: Wikipédia


Um estudo da Universidade Bilkent, na Turquia, concluiu que o que é atrativo para os homens é, na verdade, a curvatura cervical que dá lugar ao rabo e é, no caso, da mulher, mais pronunciada. A explicação dada diz que é este traço que permite à mulher mudar o seu centro de gravidade na gestação de uma criança, tendo assim uma gravidez com menos complicações — a natureza, outra vez.

A mesma razão da fertilidade foi já repetida para a atração pelo peito feminino, que é um traço erótico verdadeiramente antiquado e consensual — não esqueçamos a alegoria da República, para não falar de umas quantas virgens Marias que desnudam um seio como símbolo de maternidade.
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Bettie Page, um belo exemplo da curvatura cervical pronunciada. © Taschen / The Big Butt Book


Os padrões euro-americanos de beleza e a moda feminina não privilegiam a face traseira há tanto tempo como o fazem com os seios — que alguns pigófilos (admiradores de rabos) dizem ser uma imitação frontal do rabo. Mesmo no sexo heterossexual, o rabo parece ter qualquer fator de proibitivo, que nos aproxima dos animais. Os primeiros humanos praticariam o coito com o homem por trás da mulher, e a mudança de posições estará associada ao desenvolvimento da capacidade de amar, e ao desejo de contacto visual.

No século XVI começam a usar-se armações que evidenciam o rabo e que se mantêm até ao século XIX. Também os corpetes, ao reduzirem a cintura, evidenciavam as ancas e o rabo, criando uma silhueta de ampulheta. Mas com as flappers dos anos 20, o rabo só se adivinha, não está marcado nos vestidos que libertam o corpo.

O rabo voluptuoso era visto como inestético, se não mesmo bizarro. No final do século XVIII, Saartjie Baartman foi trazida de África para Londres pelos colonialistas britânicos e exibida como aberração por ter um rabo muito grande — nunca antes visto na Europa.

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Uma senhora de Renoir que poderia equilibrar um copo tal como Kim Kardashian.
 
Uma das explicações que se podem avançar para o rabo ter passado a maior parte do século XX quase despercebido, é o facto do padrão de beleza ocidental se ter mantido essencialmente restrito à mulher branca, que não é geneticamente propensa a glúteos desenvolvidos ou à forte acumulação de gordura nessa zona.

Mesmo na pornografia, apesar das gravuras cheias de palmadas eróticas da Inglaterra vitoriana, o foco no rabo é tardio. Dian Hanson, autor do livro The Big Butt Book, da Taschen, passou semanas a escavar arquivos de revistas pornográficas dos anos 60 para encontrar apenas uma mão cheia de imagens.


A capa do livro da Taschen só dedicado aos rabos. Aviso: a parte preta levanta-se.

 

 

No princípio era… Jennifer Lopez

O fascínio pelo rabo confunde-se com a história da afirmação das comunidades afro-americanas e latino-americanas. 1997 marcará provavelmente o ano em que Jennifer Lopez nos mostrou o caminho, quando interpretou no filme Selena a cantora latina com o mesmo nome. Com os seus movimentos de anca e sensualidade sul-americana a ser celebrada, daí em diante só valia a pena ter um rabo para o mostrar.
No ano passado, a cantora e atriz tentou lembrar-nos que foi o caso-charneira com a música que gravou com Iggy Azalea. Chamava-se simplesmente Booty – palavra difícil de traduzir em português mas que é qualquer coisa entre o diminutivo “rabiosque” e a sexualizada “bunda”. Mas depois da consagração sem vergonha do rabo, J. Lo deixou de ter o monopólio.
Com o hip hop — um movimento nascido no underground dos bairros das comunidades negras – a crescer, em meados dos anos 80, há uma estética nova a afirmar-se a todos os níveis (sendo esta época também o momento de uma aceitação mais generalizada da pornografia).
Hoje, as mulheres americanas com ascendência africana dividem-se entre o orgulho num rabo grande bem desenhado e a vontade de afastar o estereótipo. O twerk — um estilo de dança em que se faz um uso sábio do rabo ao ritmo da música — será o melhor exemplo. Uma ciência que criou polémica (por ser racial) e levantou a discussão: será que só as afrodescendentes o conseguem fazer como deve ser?
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A Anaconda de Nicki Minaj.

A comunidade negra criticou o vídeo de Taylor Swift, “Shake It Off”, pelas cenas que mostravam twerk. Num comentário para o Huffington Post, a humorista Amanda Seales criticou a cantora por estar a calcar o estereótipo dos rabos grandes como propriedade caricatural das mulheres afro-americanas e logo a seguir por não ter rabo: “She’s like: ‘i’m in my black costume now, so let me try and shake my not-ass-at-all’.”

Sendo o rabo dançante ou não uma propriedade africana, não deixa de ser curioso (até por uma questão de representatividade) que num vídeo recente de Justin Bieber só haja mulheres a dançar, mas que nenhuma pareça ser negra.

A dança e o exercício não negligenciam hoje os glúteos — se é que não vivem deles. Enquanto no século XIX Félix Vallotton pintou o grande plano de um rabo em movimento mostrando a realidade crua e dura, ou no século XVII um rabo era, para a pintura, bonito em toda a sua imperfeição ­— na celulite e nas estrias, e até numa escoliose que se diagnostica nas “Três Graças” de Rubens —, no século XX o que queremos dos rabos é que sejam tão redondos, forte e lisos quanto possível. Não há ginásio que não tenha hoje as aulas de exercícios para os glúteos sempre cheias: do bumbum Brasil ao Made in Brasil, passando pela Zumba.

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“Étude de Fesses”, de Felix Vallotton, 1884

Já nos anos 80, com a sua coleção de vídeos para fortalecer abdominais, coxas e glúteos (ou buns, como lhe chamava), Jane Fonda parecia avisar que o rabo podia ser o caminho. Ela ou as cuecas super-cavadas que se usavam na data e que na verdade evidenciavam mais as coxas e alongavam as pernas do que valorizavam o rabo, muito coberto, pelo menos acima dos trópicos — no Brasil, um biquíni cavado sempre foi qualquer coisa de mais reveladora. Mas bem-vinda aos anos 2000, Jane, e às aulas de Blaya. No Pack Five Bundas, a bailarina membro dos Buraka Som Sistema dá aulas particulares a cinco pessoas de cada vez e o grande foco é… bom, não vale a pena repetir.

Para lá das calças de ganga que prometem fazer um efeito push up e da cirurgia estética segura para reabilitar e insuflar um rabo, há um mundo a acontecer na internet e, em especial, em caves insalubres dos Estados Unidos. Para o seu livro, Hanson tentou contactar alguns dos utilizadores de fóruns sobre o corpo que afirmavam fazer injeções de hidrogel (na realidade, silicone industrial) nos glúteos de quem pagasse entre 100 a 200 euros. As utilizadoras pediam ajuda desesperada por não terem um rabo. Nos casos mais extremos estas intervenções levavam à morte.

O rabo como traço erótico indispensável está maioritariamente associado à mulher: Hanson não levanta sequer a hipótese de analisar este tema no masculino, e numa pesquisa rápida pela internet encontram-se poucas discussões do rabo associadas ao homem. A fotografia de Justin Bieber nu num barco (entretanto retirada do Instagram) é um oásis no deserto. Encontra-se a página Guy’s Butt & Other Hot Things e os seus conteúdos são maioritariamente homoeróticos.

Às mulheres, valha-lhes Vénus Calipígia, a deusa grega que está sempre, distraída e angelicamente, a mostrar o rabo.


Vénus Calipígia. Fonte: Wikipédia

Por Catarina Moura em observador

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O valor da arte


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Na verdade, o que menos importa, é se aquilo que você consegue enxergar é original ou uma cópia, se é verdade ou ficção. O que vale é a nossa interpretação, o sentido que damos para as coisas. E o valor da vida e da arte, ambos, estão totalmente imersos nessa imaterialidade.

O sentido da discussão sobre a arte, que é o pano de fundo da história, é bem amplo e filosófico. O filme Copia Fiel (Copie Conforme, 2010) sugere muita reflexão, mas deixa o expectador livre para suas próprias interpretações.

A qualidade de uma obra de arte depende do contexto e está nos olhos de quem a vê, argumenta o escritor inglês James Miller (William Shimell) no começo de Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010). Então, uma falsificação pode ter a mesma validade do original? Elle (Juliette Binoche), uma francesa dona de galeria, interessada em conhecer aquele homem e suas ideias, o convida a passear pelas ruazinhas de Lucignano.

Durante o percurso, os dois são confundidos nos papéis de marido e mulher. Vivenciando situações pitorescas da vida, eles resolvem incorporar os personagens, que passam por uma crise no casamento de 15 anos. É nesse encontro mágico que tudo acontece. Mas não há romantismo e nem paixão. São tentativas de resgate da delicadeza e da gentileza, que muitos perdem nas relações. São as contradições de cada um. A difícil aventura de amar e ser amado.

As cenas mais tocantes do filme, tão comuns e reais em um relacionamento, despertam uma identificação imediata e um certo desconforto. Elas evocam uma discussão sobre o sentido das coisas, uma busca pela interpretação dos fatos, dos sentimentos e das ideias, algo pessoal e subjetivo. Você pode achar tudo muito interessante, mas se não tiver muita paciência, pode sentir um certo cansaço ou até um grande tédio.

Há um momento em que você se sente totalmente só como a personagem de Juliette Binoche no filme. Tanto na vida como na arte, as pessoas vivenciam cada experiência de uma forma única. As coisas têm pesos diferentes. Temos olhares diferentes para o mesmo objeto e situação. O que você sente é o que você vê? Ou o que você vê é o que você sente?

Na verdade, o que menos importa, é se aquilo que você consegue enxergar é original ou uma cópia, se é verdade ou ficção. O que vale é a nossa interpretação, o sentido que damos para as coisas. E o valor da vida e da arte, ambos, estão totalmente imersos nessa imaterialidade.

O sentido da discussão sobre a arte, que é o pano de fundo da história, é bem amplo e filosófico. O filme sugere muita reflexão, mas deixa o expectador livre para suas próprias interpretações.

A qualidade de uma obra de arte depende do contexto e está nos olhos de quem a vê, argumenta o escritor inglês James Miller (William Shimell) no começo de Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010). Então, uma falsificação pode ter a mesma validade do original? Elle (Juliette Binoche), uma francesa dona de galeria, interessada em conhecer aquele homem e suas ideias, o convida a passear pelas ruazinhas de Lucignano.

Durante o percurso, os dois são confundidos nos papéis de marido e mulher. Vivenciando situações pitorescas da vida, eles resolvem incorporar os personagens, que passam por uma crise no casamento de 15 anos. É nesse encontro mágico que tudo acontece. Mas não há romantismo e nem paixão. São tentativas de resgate da delicadeza e da gentileza, que muitos perdem nas relações. São as contradições de cada um. A difícil aventura de amar e ser amado.

As cenas mais tocantes do filme, tão comuns e reais em um relacionamento, despertam uma identificação imediata e um certo desconforto. Elas evocam uma discussão sobre o sentido das coisas, uma busca pela interpretação dos fatos, dos sentimentos e das ideias, algo pessoal e subjetivo. Você pode achar tudo muito interessante, mas se não tiver muita paciência, pode sentir um certo cansaço ou até um grande tédio.

Há um momento em que você se sente totalmente só como a personagem de Juliette Binoche no filme. Tanto na vida como na arte, as pessoas vivenciam cada experiência de uma forma única. As coisas têm pesos diferentes. Temos olhares diferentes para o mesmo objeto e situação. O que você sente é o que você vê? Ou o que você vê é o que você sente?

Na verdade, o que menos importa, é se aquilo que você consegue enxergar é original ou uma cópia, se é verdade ou ficção. O que vale é a nossa interpretação, o sentido que damos para as coisas. E o valor da vida e da arte, ambos, estão totalmente imersos nessa imaterialidade.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

QUANTO VOCÊ GANHA POR MÊS PARA DESISTIR DE SEUS SONHOS?

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Era tardezinha, o sol se escondia por detrás dos baixos prédios das ruas estreitas. As sombras convidavam o povo a se reunir nas calçadas da avenida. Uma pequena multidão dispersa sentia a vida pulsar nos últimos raios de sol. Era fim de expediente, de aula, de obrigações. Era hora de relaxar e se entregar à morgação. Os carros passavam lentamente por entre as pessoas, que despreocupadas ignoravam o perigoso tráfego urbano. Havia carros, motos e ônibus, e dentro destes, vidas encharcadas de cansaço e pouca esperança.
De pé, dentro do lotado ônibus coletivo posso observar os mais diferentes rostos que, ao mesmo tempo, mostram-se iguais em seu tedioso cansaço da vida. À minha esquerda uma dupla de homens de meia idade conversa freneticamente em volume máximo sobre assuntos que ninguém mais tem interesse de ouvir. O sotaque paulistano adquirido após alguma temporada pela região sudeste, faz com que os ouvintes nordestinos não consigam ignorar o que está sendo falado.
Olhando através da janela, o "paulistano 1" exclama indignado.
- Que tanta gente na rua! O povo aqui não trabalha? Bando de desocupados!
O "paulistano 2" olha para a rua e não esboça qualquer sentimento ou fala, enquanto assiste vídeos virais através de seu smartphone.
O ônibus segue viagem, pessoas desembarcam, outras embarcam. Todas com a mesma cara cansada. A vida continua a girar.
É um novo dia. Quem trabalha com pessoas está obrigado a dar atenção às suas mais profundas indagações a respeito das coisas da vida. A maior recorrência está nas queixas pelas escolhas feitas ao longo dos anos. Gente velha queixando-se por ter de andar pela rua com o auxílio de uma bengala, por sentir vergonha, uma vez que já foi jovem, bonita e forte, disposta a resolver qualquer problema, independente das barreiras psicológicas e físicas.
Estas pessoas parecem ser maioria no mundo. Muitos anos vividos, e mesmo assim continuam sem entender que o sacrifício que fizeram foi em vão. No final, a morte virá cheia de dores como companhia. Ter se entregado ao sacrifício não terá adiantado de nada.
Vivemos baseados numa cultura que endeusa a ideia de sofrimento.
Se Jesus sofreu, quem sou eu para ser feliz? Essa absurda indagação faz as pessoas ficarem cegas diante da beleza da vida. Entregam-se ao culto da dor, e fazem do sacrifício seu modo de viver.
Em épocas de juventude, quando os ideais e os sonhos gritam por libertar-se, surge na alma a vontade de levar adiante os planos que podem conduzir ao sucesso. Mas o que é isto afinal?
Sentir-se realizado pelo que faz e não pelo dinheiro que recebe.
Pouca gente está disposta a pagar este preço, uma vez que o mundo diz que temos que ganhar cada vez mais, independente do esforço que teremos que fazer para isso. É nessa hora que os sonhos de ideologia são assassinados. O homem deixa de ter a alma jovem e torna-se adulto.
Está na hora de correr para o trabalho. Muitos acordam ainda de madrugada, fazem a marmita, correm para o ponto do ônibus com medo dos assaltantes que já estão na espreita. Então viajam horas até o outro lado da cidade caótica, onde produzem mais e mais. O dinheiro cresce nas mãos dos grandes. Os pequenos continuam pequenos, mas seguem o fluxo, esperando um final feliz que nunca vai chegar. Correm para o ponto do ônibus, já anoiteceu e está lotado. Depois de horas, chegam em casa, preparam o jantar e a marmita para amanhã. Já são onze da noite e só restam umas quatro horas para dormir. O ciclo se repete e será eternamente assim se não parar para pensar.
Mas quem tem tempo para pensar? Quando chegar o mês das férias, ninguém vai desperdiçá-las pensando, mas sim pegando um avião de volta para o interior, onde as horas passam mais devagar, as pessoas vagabundeiam no final da tarde, nas ruas por onde passam ônibus cheios de caras cansadas e abismadas por verem que existe gente "desocupada" no mundo.
Estar desocupado difere de ser desocupado. A vida precisa de pausas. É a hora em que a alma respira, olha para si e analisa o que está sendo feito. Estar no mundo precisa ter alguma justificativa, mesmo que seja apenas fazer feliz a si mesmo. Isto é o mínimo, o básico necessário para ser capaz de fazer a vida de outro alguém um momento agradável. É preciso investir em si mesmo, e isso demanda tempo. O valor que o tempo tem é inestimável, mas na correria do cotidiano, se torna mensurável monetariamente.
Na corrida pelo pódio do sucesso, onde a renda mensal se tornou o parâmetro mais importante, esquece-se que a vida é uma só, que o corpo não suporta muito esforço, que a mente vai chorar nas horas onde o silêncio vai reinar, seja no escuro do quarto, na intimidade do banheiro, ou inevitavelmente no final dos dias onde só sequelas restarão. Restará também a certeza de que após a morte, a vida na Terra continua independente se o indivíduo foi feliz ou não. O universo continuará a se expandir, as estrelas a morrer e ninguém tem o poder de fazer nada a respeito, a não ser no próprio universo particular chamado individualidade.
Cuidar da individualidade é dar tempo ao tempo, olhar ao redor, perceber o que precisa ser melhorado no trabalho, nos relacionamentos, no próprio corpo e no espírito. Protelar esse momento é ignorar a beleza da vida, não perceber as cores das coisas bonitas da cidade, os telhados frequentados pelos passarinhos, as árvores com suas sombras, a música da vida que toca seu refrão sem parar.
Para ouvi-la é vital o silencio, a pausa, o tempo. Essa música precisa ter um refrão bonito, ou então não vale a pena estar aqui. Quando tudo estiver escuro, ouça a música da vida e dance, no melhor sentido da palavra.


Por: JHONS CASSIMIRO

quinta-feira, 12 de maio de 2016

In Time: “viver”, “existir” e “sobreviver”?


Ver uma ficção que se encaixe em nossa realidade, fazem-nos reflectir sobre tudo que nos orienta: os acontecimentos, nossas reacções e as nossas perspectivas. Raramente navego no cinema, mas, o que inova a nossa forma de ver o mundo merece ser compartilhado, afinal, os filmes, livros, músicas e teatro trazem-nos, na sua maioria, realidades que já conhecemos, mas de forma incrivelmente nova, provocando novas reflexões. No filme O Preço de Amanhã (In Time título original), o tempo virou moeda, uma realidade impensável. Os mais ricos vivem séculos e isolado e os pobres morrem vivendo, ou seja, fazendo alguma coisa. É uma ficção que cientificamente não se ajusta à nossa realidade, mas convida-nos a reflexão do conceito “viver”.

“In Time”, de Andrew Niccol, filme de ficção científica, traz-nos uma sociedade que conseguiu bloquear o gene do envelhecimento. Todo mundo cresce até os 25 anos, e depois pode permanecer jovem para sempre, se puderem pagar por isso, afinal a superpopulação do planeta é uma preocupação geral. O tempo é a moeda de troca e beneficia os ricos, enquanto os pobres perdem o último suspiro fazendo algo pela sobrevivência.

Uma análise, não tão profundo, mostra-nos uma vida de correrias e vazia, um jovem pobre e motivado e uma jovem rica e entediada que só descobre o que é viver ao lado do mocinho pobre.
Antes de trazer o trama à nossa realidade, as três perguntas que fizemos depois do filme, são: como seria viver uma sociedade em que para tudo precisamos pagar? É claro, pagamos tudo no século XXI, mas ter que pagar alguns minutos, horas, dias ou séculos de vida? Será mesmo que lutar pela sobrevivência é ter uma vida sem objectivos, embora de correias, e ter excesso de tempo (ser rico) é ter uma vida entediada, viver adiando felicidade? A resposta é sim, como concluímos com o filme.
A acção começa quando Will Salas (Justin Timberlake), morador do subúrbio é falsamente acusado de ter roubado todo o “tempo” de Henry Hamilton, o que teria provocado sua morte, e terá de provar a sua inocência e descobrir uma maneira de destruir o sistema.
O personagem Henry aos 105 anos já havia vivido o suficiente para realizar seus sonhos e não ansiava por nada (coisa raro), não conseguia encontrar mais motivação em nada diferente, assim seu desejo era a morte:

Henry: Eu tenho 105.
Will: Sorte sua, não vai chegar 106 anos se tiver mais noites como essas (mais noites nos bares).
Henry: Você está certo, mas chega um dia em que já deu. Somente se esgota mesmo que seu corpo não. Nós queremos morrer, nós precisamos (…) Para poucos serem imortais outros tem que morrer.

Uma condição desumana

O filme inova ao tratar o tempo como uma forma de dinheiro, utilizado como moeda de troca nas actividades, e ao diferenciar as palavras “viver”, “existir” e “sobreviver”, que muitas das vezes tratamos como sinónimas.
No enredo, os pobres têm de trabalhar, pedir emprestado ou roubar mais horas para chegarem vivos até outro dia. E isso implica na necessidade de se viver intensamente, já que para estas pessoas não existe a perspectiva de um futuro. Os sonhos são raros, pois não há tempo para vivê-los e isso torna cada momento mais intenso e ao mesmo tempo gera uma vida vazia pelo constante medo do tempo acabar.
O personagem Borel, é uma ilustração de que pessoas que lutam apenas pela sobrevivência não tem objectivos, trabalhava intensamente para conseguir um tempo e sustentar sua esposa e seu filho e não conseguia aproveitar momentos. Mal que ganhou dez anos de presente do seu amigo Will, parou de trabalhar, se embebedou e acabou morrendo. Vivia melhor quando pobre, porque não tinha perspectivas. Isso não me parece estar longe da realidade, faz parte da natureza do ser humano a condição de sonhar. Se uma pessoa não tiver objectivos a serem alcançados, ela não tem direcção na sua vida. Viver simplesmente por viver não é uma condição humana.
A forma como a personagem Rachel morre não deve passar despercebido do espectador. Ela tinha uma hora e meia, uma hora para pagar transporte e trinta minutos seria o tempo que levaria para chegar em casa para seu filho a dar mais um tempinho de vida. Mas, infelizmente, o preço de transporte havia subido para duas horas, não tendo conseguido quem lhe desse uma hora morreu faltando um segundo para se encontrar com o filho.
Para levar isso a nossa realidade é só imaginar alguém que morre por falta de um centavo, só porque o milionário ao lado o ignorou.
Como explicar isso? O diálogo da Sylvia e Will responde:

Salas: Como vocês conseguem viver vendo pessoas morrendo do lado de vocês?
Sylvia: Não os vimos. Fechamos os olhos.

Já os ricos, inconscientemente morrem pelo excesso do tempo, isolam-se e param de viver (apenas existem). Como não tinha preocupação com o tempo, não importava fazer uma coisa agora ou anos para frente. Isso resultava em uma despreocupação em ter um objectivo de vida, consequentemente eles não sabiam aproveitar cada momento da vida. Sylvia, por exemplo, tinha uma praia em frente a sua casa, mas nunca tinha aproveitado um banho de mar. Para os ricos que possuíam objectivos, basicamente este objectivo era obter cada vez mais tempo e com esse tempo obter mais luxos.
O filme lançado em 2011 é do director, roteirista e produtor neozelandês, Andrew Niccol. Seus filmes normalmente exploram questões sociais, políticas e culturais, como se pode ver na obra que talvez tenha sido o seu maior sucesso: O Show de Truman, que lançou seu nome no hollywood.

Nelson Mucandze

sexta-feira, 11 de março de 2016

Discurso de Steve Jobs na Universidade de Stanford, em 2005

Você tem que encontrar o que você ama
Estou honrado de estar aqui, na formatura de uma das melhores universidades do mundo. Eu nunca me formei na universidade. Que a verdade seja dita, isso é o mais perto que eu já cheguei de uma cerimônia de formatura. Hoje, eu gostaria de contar a vocês três histórias da minha vida. E é isso. Nada demais. Apenas três histórias.
A primeira história é sobre ligar os pontos.
Eu abandonei o Reed College depois de seis meses, mas fiquei enrolando por mais 18 meses antes de realmente abandonar a escola. E por que eu a abandonei? Tudo começou antes de eu nascer. Minha mãe biológica era uma jovem universitária solteira que decidiu me dar para a adoção. Ela queria muito que eu fosse adotado por pessoas com curso superior. Tudo estava armado para que eu fosse adotado no nascimento por um advogado e sua esposa. Mas, quando eu apareci, eles decidiram que queriam mesmo uma menina.
Então meus pais, que estavam em uma lista de espera, receberam uma ligação no meio da noite com uma pergunta: “Apareceu um garoto. Vocês o querem?” Eles disseram: “É claro.”
Minha mãe biológica descobriu mais tarde que a minha mãe nunca tinha se formado na faculdade e que o meu pai nunca tinha completado o ensino médio. Ela se recusou a assinar os papéis da adoção. Ela só aceitou meses mais tarde quando os meus pais prometeram que algum dia eu iria para a faculdade. E, 17 anos mais tarde, eu fui para a faculdade. Mas, inocentemente escolhi uma faculdade que era quase tão cara quanto Stanford. E todas as economias dos meus pais, que eram da classe trabalhadora, estavam sendo usados para pagar as mensalidades. Depois de seis meses, eu não podia ver valor naquilo.
Eu não tinha idéia do que queria fazer na minha vida e menos idéia ainda de como a universidade poderia me ajudar naquela escolha. E lá estava eu, gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado durante toda a vida. E então decidi largar e acreditar que tudo ficaria ok.
Foi muito assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das melhores decisões que já fiz. No minuto em que larguei, eu pude parar de assistir às matérias obrigatórias que não me interessavam e comecei a frequentar aquelas que pareciam interessantes. Não foi tudo assim romântico. Eu não tinha um quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 centavos, com os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilômetros pela cidade todo domingo à noite para ter uma boa refeição no templo hare-krishna. Eu amava aquilo.
Muito do que descobri naquela época, guiado pela minha curiosidade e intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço. Vou dar um exemplo: o Reed College oferecia naquela época a melhor formação de caligrafia do país. Em todo o campus, cada poster e cada etiqueta de gaveta eram escritas com uma bela letra de mão. Como eu tinha largado o curso e não precisava frequentar as aulas normais, decidi assistir as aulas de caligrafia. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre diferentes combinações de letras, sobre o que torna uma tipografia boa. Aquilo era bonito, histórico e artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não pode entender. E eu achei aquilo tudo fascinante.
Nada daquilo tinha qualquer aplicação prática para a minha vida. Mas 10 anos mais tarde, quando estávamos criando o primeiro computador Macintosh, tudo voltou. E nós colocamos tudo aquilo no Mac. Foi o primeiro computador com tipografia bonita. Se eu nunca tivesse deixado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido as fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E considerando que o Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum computador as tivesse.
Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm. É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.
De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.
Minha segunda história é sobre amor e perda.
Eu tive sorte porque descobri bem cedo o que queria fazer na minha vida. Woz e eu começamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha 20 anos. Trabalhamos duro e, em 10 anos, a Apple se transformou em uma empresa de 2 bilhões de dólares e mais de 4 mil empregados. Um ano antes, tínhamos acabado de lançar nossa maior criação — o Macintosh — e eu tinha 30 anos.
E aí fui demitido. Como é possível ser demitido da empresa que você criou? Bem, quando a Apple cresceu, contratamos alguém para dirigir a companhia. No primeiro ano, tudo deu certo, mas com o tempo nossas visões de futuro começaram a divergir. Quando isso aconteceu, o conselho de diretores ficou do lado dele. O que tinha sido o foco de toda a minha vida adulta tinha ido embora e isso foi devastador. Fiquei sem saber o que fazer por alguns meses.
Senti que tinha decepcionado a geração anterior de empreendedores. Que tinha deixado cair o bastão no momento em que ele estava sendo passado para mim. Eu encontrei David Peckard e Bob Noyce e tentei me desculpar por ter estragado tudo daquela maneira. Foi um fracasso público e eu até mesmo pensei em deixar o Vale [do Silício].
Mas, lentamente, eu comecei a me dar conta de que eu ainda amava o que fazia. Foi quando decidi começar de novo. Não enxerguei isso na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido para mim. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo. Isso me deu liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida. Durante os cinco anos seguintes, criei uma companhia chamada NeXT, outra companhia chamada Pixar e me apaixonei por uma mulher maravilhosa que se tornou minha esposa.
A Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. Em uma inacreditável guinada de eventos, a Apple comprou a NeXT, eu voltei para a empresa e a tecnologia que desenvolvemos nela está no coração do atual renascimento da Apple.
E Lorene e eu temos uma família maravilhosa. Tenho certeza de que nada disso teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple.
Foi um remédio horrível, mas eu entendo que o paciente precisava. Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as pessoas que você ama.
Seu trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz.
Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer grande relacionamento, só fica melhor e melhor à medida que os anos passam. Então continue procurando até você achar. Não sossegue.
Minha terceira história é sobre morte.
Quando eu tinha 17 anos, li uma frase que era algo assim: “Se você viver cada dia como se fosse o último, um dia ele realmente será o último.” Aquilo me impressionou, e desde então, nos últimos 33 anos, eu olho para mim mesmo no espelho toda manhã e pergunto: “Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje?” E se a resposta é “não” por muitos dias seguidos, sei que preciso mudar alguma coisa.
Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo — expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar — caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração.
Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.
Há um ano, eu fui diagnosticado com câncer. Era 7h30 da manhã e eu tinha uma imagem que mostrava claramente um tumor no pâncreas. Eu nem sabia o que era um pâncreas.
Os médicos me disseram que aquilo era certamente um tipo de câncer incurável, e que eu não deveria esperar viver mais de três a seis semanas. Meu médico me aconselhou a ir para casa e arrumar minhas coisas — que é o código dos médicos para “preparar para morrer”. Significa tentar dizer às suas crianças em alguns meses tudo aquilo que você pensou ter os próximos 10 anos para dizer. Significa dizer seu adeus.
Eu vivi com aquele diagnóstico o dia inteiro. Depois, à tarde, eu fiz uma biópsia, em que eles enfiaram um endoscópio pela minha garganta abaixo, através do meu estômago e pelos intestinos. Colocaram uma agulha no meu pâncreas e tiraram algumas células do tumor. Eu estava sedado, mas minha mulher, que estava lá, contou que quando os médicos viram as células em um microscópio, começaram a chorar. Era uma forma muito rara de câncer pancreático que podia ser curada com cirurgia. Eu operei e estou bem.
Isso foi o mais perto que eu estive de encarar a morte e eu espero que seja o mais perto que vou ficar pelas próximas décadas. Tendo passado por isso, posso agora dizer a vocês, com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito apenas abstrato: ninguém quer morrer. Até mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para chegar lá.
Ainda assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém nunca conseguiu escapar. E assim é como deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Nesse momento, o novo é você. Mas algum dia, não muito distante, você gradualmente se tornará um velho e será varrido. Desculpa ser tão dramático, mas isso é a verdade.
O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro alguém.
Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da vida de outras pessoas.
Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior.
E o mais importante: tenha coragem de seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário.
Quando eu era pequeno, uma das bíblias da minha geração era o Whole Earth Catalog. Foi criado por um sujeito chamado Stewart Brand em Menlo Park, não muito longe daqui. Ele o trouxe à vida com seu toque poético. Isso foi no final dos anos 60, antes dos computadores e dos programas de paginação. Então tudo era feito com máquinas de escrever, tesouras e câmeras Polaroid.
Era como o Google em forma de livro, 35 anos antes de o Google aparecer. Era idealista e cheio de boas ferramentas e noções. Stewart e sua equipe publicaram várias edições de Whole Earth Catalog e, quando ele já tinha cumprido sua missão, eles lançaram uma edição final. Isso foi em meados de 70 e eu tinha a idade de vocês.
Na contracapa havia uma fotografia de uma estrada de interior ensolarada, daquele tipo onde você poderia se achar pedindo carona se fosse aventureiro. Abaixo, estavam as palavras:
“Continue com fome, continue bobo.”
Foi a mensagem de despedida deles. Continue com fome. Continue bobo. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, quando vocês se formam e começam de novo, eu desejo isso para vocês. Continuem com fome. Continuem bobos.

Obrigado.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Confissão: Duas horas depois, ele odeia-se por ter ficado indignado

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Um homem embarca num avião e senta-se à janela. Ele mora Tóquio, no Japão, e planeja voar até Hong Kong, na China. Porém, minutos depois uma mulher ocupa o assento ao lado dele, transformando o seu pior pesadelo em realidade.

“Olá! Tudo bem?” perguntou esta estranha ao se aproximar. Equilibrando o seu volumoso corpo, ela teve que se abaixar lentamente, espremendo seu traseiro para que ele coubesse no assento do avião.
Após se posicionar confortavelmente, ela colocou seu enorme braço no apoio entre as nossas cadeiras. A sua imensidão saturou o espaço entre nós e eu e meu assento fomos espremidos contra a janela.

Como eu não reagi à sua pergunta, ela repetiu a saudação em tom alegre e amigável. O seu rosto elevava-se acima da minha cabeça e eu tive que girar o meu corpo para poder vê-la. “Olá”, respondi, obviamente incomodado.
Em seguida, virei-me para a janela, maldizendo, em silêncio, as longas horas de desconforto que eu teria que enfrentar com este monstro ao meu lado.
Ela tocou-me com o braço carnudo. “O meu nome é Laura. Eu sou da Grã-Bretanha. E você? Japonês?”
“Malásia”, resmunguei.
“Eu sinto muito pelo incómodo! Aceitarias meu sincero pedido de desculpas? Vamos lá, aperte a minha mão. Se nós vamos passar 6 horas lado-a-lado neste vôo é melhor sermos amigos, não achas?” Ela estendeu o braço e acabei por lhe apertar a mão, ainda que relutantemente.
Indiferente ao meu comportamento rude, Laura começou a conversar comigo. Ela contou-me animada que estava a ir para Hong Kong para visitar alguns amigos. Ela também descreveu contente os presentes que planejava comprar para os seus alunos do internato onde ela dava aulas.
Para cada pergunta que ela fazia, eu respondia com uma única palavra. Sem se abalar com minhas reações frias, Laura assentia com a cabeça e tecia comentários positivos em relação às minhas respostas. A sua voz era suave e carinhosa. Quando a refeição foi servida, ela fez de tudo para que eu tivesse espaço suficiente para comer e me movimentar. “Eu não quero espremer-te com o meu corpo de elefante!” ela disse com sinceridade.
Para minha surpresa, aquela mulher que me causou tanta repulsa quando chegou, começou a ganhar a minha simpatia. Aos poucos, eu comecei a baixar a minha guarda.
Laura tinha uma conversa interessante. Ele era culta e sabia muito de filosofia e ciência. Ela conseguia tornar os assuntos mais banais em algo a ser analisado e discutido. Quando começamos a falar sobre cultura, eu fiquei surpreso com os seus comentários inteligentes e bem colocados. Além disso, seu senso de humor era incrível!
Durante todo o tempo no avião, Laura entreteve todos os comissários de bordo com as suas brincadeiras e o seu bom humor.
Quando uma hospedeira veio recolher os nossos pratos, Laura fez várias piadas em relação ao seu próprio peso. A comissária chorou de tanto rir e no final segurou a mão de Laura e disse: “você fez-me ganhar o dia!”
Eu perguntei à Laura: “Nunca pensou em tentar perder um pouco de peso?”
“Não. Eu trabalhei duro para chegar onde cheguei. Porque quereria voltar atrás?”
“Você não se preocupa com a sua saúde e com os problemas relacionados à obesidade?”
“Não. Você só fica doente se pensar constantemente sobre o seu peso. Você vê anuncios de centros de emagrecimento que dizem ‘liberte-se do seu peso extra e volte a ser você mesma’. Uma grande mentira! Você só é você mesma quando se sente confortável e satisfeita sendo quem é, independente da sua aparência. E isso não apenas num dia específico, e sim em todos os dias do ano. Porque deveria eu gastar o meu tempo com regimes se posso fazer outras coisas muito mais interessantes? Eu alimento-me de maneira saudável e faço exercícios. Eu tenho este tamanho porque nasci para ser gordinha! A vida é muito mais do que estes quilos extras! E eu tenho outras coisas melhores para fazer, ao invés de pensar o tempo todo nas minhas banhas.”
Laura tomou então um gole de vinho. “Além disso, Deus deu-me tanta felicidade que eu precisei de um corpo grande para poder acomodar toda esta alegria de viver. E porque escolheria eu perder peso e felicidade ao mesmo tempo?”
Surpreendido com a sua lógica, eu sorri.
Laura continuou. “As pessoas em geral veem-me como uma mulher gorda, com grandes seios, enormes coxas e com um bum-bum tão gigantesco que nenhum homem jamais chegaria a apreciar. Elas acreditam que eu seja uma bobona e acham que eu sou preguiçosa e não tenho força de vontade. Mas as pessoas estão erradas.”
Com um sorriso no rosto, ela pede à hospedeira mais um pouco de vinho. Ao agradecer, ela gentilmente adiciona: “Esta tripulação está a fazer um ótimo trabalho. Que Deus vos abençoe a todos.”
Virando-se na minha direção, Laura continua: “Na verdade, eu sou uma pessoa magra por dentro. Eu tenho tanta energia que a maior parte das pessoas não consegue acompanhar-me. Esta carne extra está aqui para me desacelerar, ou estaria por aí a correr atrás de homens o tempo todo!”
“E os homens correm atrás de você?” perguntei eu brincando.
“É claro que sim. Eu sou muito bem casada, mas outros homens continuam a dar piropos. A maior parte deles está a passar por uma crise no relacionamento e querem alguém para conversar. Eu não sei bem porque, mas eles gostam de conversar comigo. Eu acho que eu deveria ter sido terapeuta, ao invés de professora.
Após uma curta pausa, Laura continua. “Você sabe, os relacionamentos são muito complicados. As mulheres veneram os homens e chamam-nos de ‘meu amor’ até que descobrem que foram traídas. A partir daí elas transformam-se em verdadeiros monstros. Já os homens, eles amam profundamente as suas mulheres, até que descobrem os custos de ter uma esposa e uma família, e passam a ver a mulher como um diabo segurando tridentes!”
A conversa com Laura acabou por fazer com que meu longo vôo se transformasse num momento muito agradável. Eu fiquei fascinado com o seu carisma. Perto do fim da viagem, quase metade dos comissários de bordo estavam parados no corredor perto dos nossos assentos, rindo e conversando com Laura. Outros passageiros ao redor também participaram deste incrível momento de trocas e sorrisos. Laura emanava uma energia positiva, calorosa e feliz.
Quando nós nos despedimos no saguão do aeroporto de Hong Kong, eu observei enquanto ela caminhava em direção a um grupo sorridente de adultos e crianças. Mesmo de longe, eu ouvi os gritos animados e as gargalhadas daquelas pessoas, que efusivamente abraçavam e beijavam a Laura. De repente, ela virou-se e acenou uma última vez na minha direção.
Eu fiquei surprendido com a conclusão a que cheguei naquele dia: Laura era a mulher mais bonita que eu já tinha conhecido.”
Que história linda! A mensagem que ela transmite é uma verdadeira lição de vida. Partilha este artigo com teus amigos e espalha estas palavras bonitas pelo mundo!
heftig.co