terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A defesa do prisioneiro

A morte da bela miss Ena Garnier, ou pelo menos as circunstâncias dessa morte, tais como foram conhecidas pelo público, e o fato de ter o assassino, capitão John Fowler, recusado toda e qualquer defesa durante o inquérito policial, suscitaram emoção intensa, e a fermentação dos espíritos atingira ao auge quando o irmão do criminoso declarara que essa defesa viria ao seu tempo, esmagadora e indiscutível. Enfim, a curiosidade do público ainda mais se exacerbou quando se soube que o capitão Fowler dispensara a assistência judiciária, reservando-se o direito de fazer sua própria defesa.

No dia do julgamento, o caso, habilmente apresentado pelo promotor, parecia encaminhar-se apara uma condenação — pois restara demonstrado que o acusado estava sujeito a crise de ciúmes —, quando o acusado obteve a palavra.

Era um homem cujo aspecto não poderia passar ignorado em uma multidão: tez bronzeada, olhos enérgicos e estatura de atleta. Sem hesitar, com segurança que mal disfarçava uma profunda melancolia, ele disse:

— Começo por agradecer a generosidade dos senhores advogados, que me ofereceram seus serviços; se os recusei, não foi por que confie mais em minha eloquência, mas, ao contrário, porque julgo que é meu dever trazer a este tribunal unicamente uma exposição de fatos, simples e clara, sem ornamentações de retórica nem efeitos de orador. Assim, os senhores juízes terão diante de si a humilde verdade —a humilde e dolorosa verdade —e poderão formular a sentença perfeita.

“Sou um soldado. Nunca fui outra coisa. Toda a minha vida tem sido dedicada ao serviço do meu país e à honra de sua bandeira. Alistei-me aos quinze anos e obtive minhas primeiras divisas na guerra sul-africana. Por isso, quando começou a guerra com a Alemanha, destacaram-me de meu regimento para me colocarem como instrutor no primeiro regimento de escoceses então organizado em Radchurch, no Essex.

“Foi aí que conheci miss Ena Garnier e confesso que nunca imaginara beleza mais perfeita. Eu sempre acreditara que a expressão ‘apaixonar-se à primeira vista’ fosse uma fantasia de romancistas, mas, desde o momento em que conheci miss Garnier, tive apenas uma ideia, um desejo, uma ambição: — fazê-la minha esposa. Fui tomado de uma paixão frenética, irresistível como um instinto, e todo o mundo, com tudo quanto contém, seria para mim sem importância se eu não pudesse obter o amor daquela criatura. Um só sentimento sobrenadava em meu delírio: — minha honra de soldado.

“Notei, porém, que miss Ena Garnier não era insensível a minhas atenções. Tive ocasião de vê-la muitas vezes na casa do sr. Murreyfield, esquire local, onde era professora, havia já um ano, e tratada carinhosamente como pessoa da família. Parecia-me natural sua simpatia — não por minhas qualidades, mas pelo prestígio de meu uniforme — porque Ena manifestava a cada instante o mais ardente patriotismo: sua voz vibrava de cólera ao falar nas atrocidades cometidas na Bélgica. Eu desejava desposá-la imediatamente; ela, porém, exigiu que só após o término da guerra fosse efetuada a cerimônia.

“Tive, portanto, muito tempo para observar-lhe gênio e as originalidades, que me pareciam encantadores. Seu esporte favorito era o da motocicleta, que manobrava a primor fazendo longos passeios, sozinha, pelos campos. Caprichosa, zombeteira, exaltava minha paixão, sujeitando-me a provações sem conta. Eu tudo suportava. Aquele despotismo inútil parecia-me natural em uma mulher jovem, que se sabe muito amada. Uma dessas provações ‘para me pôr de castigo’ — como dizia — era proibir-me de acompanhá-la em seus passeios de motocicleta. No inquérito, falou-se muito em meu ciúme... Como poderia eu deixar de o ter, apaixonado como estava, diante dos caprichos inexplicáveis de Ena? Verifiquei, pouco a pouco, que ela conhecia muitos oficiais das guarnições de Chelmsford e Colchester. E a motocicleta levava-a, durante horas inteiras, só Deus sabe aonde...
“Por vezes, o raciocínio demonstrava-me que era uma loucura comprometer assim minha existência e minha alma por uma criatura que mal conhecia. Porém, Ena sorria — não havia raciocínio que resistisse a seu sorriso.

“Um dia, encontrei sobre a mesa de Ena uma fotografia de homem, tendo nas costas um nome: Huberto Vardin. E o que mais me impressionou foi que o cartão parecia usado como o dos retratos de namorado, que algumas moças trazem ocultamente consigo durante meses... Quando lhe perguntei de quem era aquele retrato, Eva perturbou-se; mas, recobrando prontamente o domínio de seus nervos, afirmou, contra toda a verossimilhança, que não sabia, e que o cartão aparecera sobre sua mesa sem que lhe pertencesse. Tivemos um arrufo. Ela, porém, era tão loucamente sedutora que em pouco eu lhe pedia perdão de minhas suspeitas.

“Na semana seguinte, fui chamado para servir no Ministério da Guerra. A minha posição, embora subalterna, envolvia grande responsabilidade. Tive que ir morar em Londres e meu serviço absorveu-me até os domingos. Somente um mês depois, pude obter alguns dias de licença... malditos dias que consumaram a minha desgraça.

“Parti para Radchurch. A estação da estrada de ferro fica a cinco milhas da vila e Ena veio a meu encontro. Era a nossa primeira entrevista a sós depois que eu lhe dera toda a minha alma e, no enlevo de meu amor, eu confiei-lhe um segredo que não me pertencia, segredo da maior importância... Vou expor-lhes concisamente esse fato, pelo qual me considero mais criminoso do que pelo assassinato daquela criatura. Revelei-lhe um segredo de que dependia o êxito de uma batalha e a vida de milhares de homens.

“Ela impacientava-se com as delongas da guerra, lamentava-se, quase chorava por ver nosso exército detido tantos meses diante das linhas alemãs. Procurei demonstrar-lhe que de fato eram nossas linhas que detinham o inimigo.

“— Mas, então, nada poderemos fazer para libertar a França e a Bélgica? —exclamava ela. — Ficamos eternamente inertes em nossas trincheiras? Oh, não! Dize-me alguma coisa que alimente minha esperança. Há momentos em que parece que meu coração vai estalar...

“— Descansa — disse-lhe sorrindo. — Dentro em pouco terás boas notícias.

“— Sim? — disse ela, segurando-me pelos ombros com entusiasmo quase delirante. — Oh, meu querido!... Conta-me tudo. Quando será isso?

“— Breve.

“— Ora! Com a fleuma do Estado Maior, ‘breve’ bem pode significar ‘para o ano’.

“— Não. Muito menos.

“— Um mês? Ah, meu Deus! Eu não tenho paciência para esperar tanto!...

“— Talvez não tenhas que esperar nem uma semana...

“Ela apertou-me as mãos com alegria febril.

“— Que felicidade! E quem vai atacar... Nós ou os franceses?

“— Nós e eles.

“— Ah, compreendo: a ofensiva vai partir do ponto em que os dois exércitos se juntam.

“— Não; aí, não.

“— Como não? Não se trata de uma ação conjunta?

“ — Tolinha disse-lhe eu, ingenuamente. — Supõe que os ingleses avançam no setor de Ypres e os franceses no de Verdun... Embora centenas de léguas os separem, a ação não deixa de ser combinada...

“— Ah, compreendo! — exclamou ela com grande alegria. — Avançam nas duas extremidades da linha, ao mesmo tempo, para que os boches[1] não saibam para que lado enviar reforços...

— Exatamente... avanço simulado em Ypres e verdadeiro diante de Verdun...

“Nesse momento, compreendi que falara demais e detive-me com tal expressão de susto que ela tratou de me tranquilizar.

“— Oh, querido!... Será mais fácil arrancar-me a língua do que obrigar-me a repetir uma palavra do que me disseste.

“Que razão tinha eu para duvidar de sua sinceridade? Foi quase tranquilo que montei a cavalo para ir ao campo de Pedley-Woodrow levar ao coronel Worsal uma carta do Ministério. Não cheguei até lá. No caminho encontrei o ordenança do coronel, entreguei-lhe a carta e voltei a procura de Ena com a sofreguidão de um enamorado.

“Entrando em casa do sr. Murreyfield, a criada informou-me de que ela subira para seu quarto. Fora vestir-se, depois de ter mandado preparar a motocicleta. Pareceu-me estranho que ela fosse dar um passeio durante minha visita, que devia ser tão curta. Sentei-me na sala à sua espera e, olhando distraído para o mata-borrão, que estava sobre a secretária, pasmei. Havia sobre o papel vermelho um nome que, embora aparecesse às avessas, saltou-me logo aos olhos, o nome de Huberto Vardin, escrito com a letra resoluta de Ena. Evidentemente, ela escrevera seu endereço, porque após o nome havia as iniciais S. W., que designam uma circunscrição postal de Londres.

“Senti todo o sangue gelar-me nas veias... Ela escrevia àquele homem que afirmava não conhecer...

“Senhores, não tento explicar minha conduta. Num ímpeto de furor, meti mãos à secretária e arrombei-a. A carta ali estava, fechada... não tive escrúpulos em rasgar o envelope... ação ilegal, irregular bem o sei. Mas num acesso de ciúme desatinado eu não refletia. Queria ler aquela carta.

“As primeiras palavras fizeram-me tremer de alegria. ‘Meu caro sr. Vardin’...

“Não era uma carta de amor. Foi o fique mais me interessou, tanto que já ia fechá-la, arrependido de minha violência, quando uma palavra quase no fim da página feriu-me o olhar: feriu-me... é bem o termo — como a picada de uma víbora.

“Essa palavra era “Verdun”.

“Só então notei que a carta era escrita em alemão. Cambaleando, lívido de surpresa e de horror, li-a toda. Era uma narração completa do que eu lhe dissera, acompanhada por outras informações sobre o movimento de tropas nos arredores. Terminava assim:

“‘Espero obter de meu informante a data exata, mas julgo prudente aproveitar o correio holandês de hoje para dar a von Starner estas informações, porque se trata de uma batalha de grande importância. Vou em pessoa levar esta carta a Colchester.
Como sempre sua serva fiel Sophia Heffner’.

“Minha primeira impressão foi a de um aniquilamento total... Aquela mulher que adorava, minha noiva, era uma alemã, uma espiã... Mas logo todo o meu pensamento voltou-se para o perigo criado por minha imprudência... Ouvi os passos da miserável na escada. Ao ver-me diante da secretária partida, tendo nas mãos a carta, ela fez um gesto que poderia ser de susto... ou de cólera. Toda a sua fisionomia transtornou-se e, sem uma palavra, num ímpeto de fera, atirou-se a mim tentando arrancar-me o papel. Eu a repeli com força. Atirei-a sobre o canapé e toquei a campainha. O sr. Murreyfield acudiu logo e ficou apavorado ao conhecer a situação. E disse-me com ansiedade:

“— Creio que o senhor não hesitará em entregá-la às autoridades.

“— Nem um minuto — respondi. O que lhe peço é que não a deixe fugir enquanto eu vou avisar prevenir o coronel Worsal, e pedir-lhe uma escolta para levá-la ao acampamento.

“—Vou fechá-la no seu quarto.

“— Não é preciso — disse ela, que parecia ter recobrado toda a calma. — Comprometo a não arredar pé daqui. Nenhum perigo me ameaça. Este belo capitão não me pode denunciar sem confessar ao mesmo tempo que traiu um segredo confiado a sua honra; terá sua carreira cortada... portanto.

“Eu a interrompi rispidamente, dizendo ao sr. Murreyfield:

“— Faça-me o favor de levá-la ao seu quarto.

“Ena foi a primeira a encaminhar-se para o corredor. Mas, chegando à porta, deu um salto para a porta da rua, correu à calçada e alcançou a motocicleta, que ali estava. Precipitamo-nos também e, antes que ela pusesse o motor em movimento, seguramo-la pelos braços. Como uma fera, a alemã voltou-se e mordeu o sr. Murreyfield num pulso. Não conseguimos dominá-la a sem grandes esforços. Foi preciso arrastá-la até a escada, espumando, com os olhos faiscantes. Quando a fechamos afinal, ela começou a soltar verdadeiros uivos de furor.

“— A porta é sólida — disse o sr. Murreyfield, detendo com o lenço o sangue que lhe corria do ferimento. — Em todo o caso, ficarei aqui, no corredor, até que o senhor volte... ficarei com um revólver.

“Corri a Pedley. O coronel partira para inspecionar os postos do litoral. Isso causou-me um primeiro atraso. Depois, todas as formalidades a preencher... assinatura do juiz na ordem de prisão, designação da escolta...

“Alucinado pela impaciência, meti o cavalo a galope e voltei sozinho, distanciando-me de todos. Era já noite fechada. A estrada de Pedley a Woodrow corta a de Colchester a meia milha de Radchurch.

“Mal ultrapassei essa encruzilhada, ouvi o ruído de uma motocicleta lançada a toda a força. Detive-me e observei o caminho atento. O veículo vinha sem lanternas e com velocidade louca. Mas, quando passou diante de mim como um relâmpago, vi, nitidamente, a pessoa que ia pilotando. Essa mulher que eu amara, sem chapéu, com os cabelos ao vento, os olhos fitos e toda a face contraída num ricto de alegria satânica, parecia uma das Valquírias de sua terra natal... Ia já longe, na estrada de Colchester, quando imaginei as consequências de sua fuga. Se ela conseguisse alcançar o cúmplice, a vitória de nossos aliados seria impossível, e milhares de soldados seriam sacrificados inutilmente. Empunhei o revólver e disparei-o por duas vezes sobre a silhueta que se destacava nitidamente no horizonte enluarado... Ouvi um grito, o ruído da queda da motocicleta; depois... o silêncio.

“Não preciso dizer mais nada. Os cavalheiros sabem o resto. Encontrei Sophia Heffner caída de um lado da estrada, morta. Uma das balas de meu revólver a alcançara na nuca. Quando Murreyfield chegou, correndo, arquejante, contou-me que ela fugira pela janela, descendo, com audácia incrível, por um cano das águas pluviais, e somente o ruído da motocicleta, partindo, denunciara sua fuga. Enquanto eu ouvia confusamente sua narração, chegaram os soldados, que vinham prender aquela mulher. E, por ironia do destino, foi a mim que prenderam em seu lugar.

A defesa do acusado

No inquérito policial, ficou estabelecido que o ciúme era a causa do crime. Eu não neguei tal causa, nem apresentei eventuais testemunhas para refutá-la. Era, aliás, o meu desejo que todos acreditassem justamente nisto. A hora da ofensiva francesa ainda não havia chegado, e eu não podia me defender sem revelar o conteúdo da carta. O segredo e o silêncio se impunham. Confesso a minha gravíssima culpa. Mas não a que me impingem. Eu seria responsável pela morte de meus próprios compatriotas se houvesse deixado aquela mulher escapar.

Estes são os fatos, cavalheiros. Deixo o meu futuro em suas mãos.  Caso os senhores deliberem pela minha absolvição, alimentarei a esperança de servir ao meu país de forma tal a expiar o pecado de minha enorme indiscrição. E espero, também, que fiquem definitivamente extintas as lembranças que tanto me afligem. Caso os senhores me condenem, eu estarei pronto a enfrentar a consequência que os senhores julgarem adequada à punição de minha conduta.


Por Sir Arthur Conan Doyle
(1859 - 1930)
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segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O valor da arte


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Na verdade, o que menos importa, é se aquilo que você consegue enxergar é original ou uma cópia, se é verdade ou ficção. O que vale é a nossa interpretação, o sentido que damos para as coisas. E o valor da vida e da arte, ambos, estão totalmente imersos nessa imaterialidade.

O sentido da discussão sobre a arte, que é o pano de fundo da história, é bem amplo e filosófico. O filme Copia Fiel (Copie Conforme, 2010) sugere muita reflexão, mas deixa o expectador livre para suas próprias interpretações.

A qualidade de uma obra de arte depende do contexto e está nos olhos de quem a vê, argumenta o escritor inglês James Miller (William Shimell) no começo de Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010). Então, uma falsificação pode ter a mesma validade do original? Elle (Juliette Binoche), uma francesa dona de galeria, interessada em conhecer aquele homem e suas ideias, o convida a passear pelas ruazinhas de Lucignano.

Durante o percurso, os dois são confundidos nos papéis de marido e mulher. Vivenciando situações pitorescas da vida, eles resolvem incorporar os personagens, que passam por uma crise no casamento de 15 anos. É nesse encontro mágico que tudo acontece. Mas não há romantismo e nem paixão. São tentativas de resgate da delicadeza e da gentileza, que muitos perdem nas relações. São as contradições de cada um. A difícil aventura de amar e ser amado.

As cenas mais tocantes do filme, tão comuns e reais em um relacionamento, despertam uma identificação imediata e um certo desconforto. Elas evocam uma discussão sobre o sentido das coisas, uma busca pela interpretação dos fatos, dos sentimentos e das ideias, algo pessoal e subjetivo. Você pode achar tudo muito interessante, mas se não tiver muita paciência, pode sentir um certo cansaço ou até um grande tédio.

Há um momento em que você se sente totalmente só como a personagem de Juliette Binoche no filme. Tanto na vida como na arte, as pessoas vivenciam cada experiência de uma forma única. As coisas têm pesos diferentes. Temos olhares diferentes para o mesmo objeto e situação. O que você sente é o que você vê? Ou o que você vê é o que você sente?

Na verdade, o que menos importa, é se aquilo que você consegue enxergar é original ou uma cópia, se é verdade ou ficção. O que vale é a nossa interpretação, o sentido que damos para as coisas. E o valor da vida e da arte, ambos, estão totalmente imersos nessa imaterialidade.

O sentido da discussão sobre a arte, que é o pano de fundo da história, é bem amplo e filosófico. O filme sugere muita reflexão, mas deixa o expectador livre para suas próprias interpretações.

A qualidade de uma obra de arte depende do contexto e está nos olhos de quem a vê, argumenta o escritor inglês James Miller (William Shimell) no começo de Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010). Então, uma falsificação pode ter a mesma validade do original? Elle (Juliette Binoche), uma francesa dona de galeria, interessada em conhecer aquele homem e suas ideias, o convida a passear pelas ruazinhas de Lucignano.

Durante o percurso, os dois são confundidos nos papéis de marido e mulher. Vivenciando situações pitorescas da vida, eles resolvem incorporar os personagens, que passam por uma crise no casamento de 15 anos. É nesse encontro mágico que tudo acontece. Mas não há romantismo e nem paixão. São tentativas de resgate da delicadeza e da gentileza, que muitos perdem nas relações. São as contradições de cada um. A difícil aventura de amar e ser amado.

As cenas mais tocantes do filme, tão comuns e reais em um relacionamento, despertam uma identificação imediata e um certo desconforto. Elas evocam uma discussão sobre o sentido das coisas, uma busca pela interpretação dos fatos, dos sentimentos e das ideias, algo pessoal e subjetivo. Você pode achar tudo muito interessante, mas se não tiver muita paciência, pode sentir um certo cansaço ou até um grande tédio.

Há um momento em que você se sente totalmente só como a personagem de Juliette Binoche no filme. Tanto na vida como na arte, as pessoas vivenciam cada experiência de uma forma única. As coisas têm pesos diferentes. Temos olhares diferentes para o mesmo objeto e situação. O que você sente é o que você vê? Ou o que você vê é o que você sente?

Na verdade, o que menos importa, é se aquilo que você consegue enxergar é original ou uma cópia, se é verdade ou ficção. O que vale é a nossa interpretação, o sentido que damos para as coisas. E o valor da vida e da arte, ambos, estão totalmente imersos nessa imaterialidade.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

QUANTO VOCÊ GANHA POR MÊS PARA DESISTIR DE SEUS SONHOS?

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Era tardezinha, o sol se escondia por detrás dos baixos prédios das ruas estreitas. As sombras convidavam o povo a se reunir nas calçadas da avenida. Uma pequena multidão dispersa sentia a vida pulsar nos últimos raios de sol. Era fim de expediente, de aula, de obrigações. Era hora de relaxar e se entregar à morgação. Os carros passavam lentamente por entre as pessoas, que despreocupadas ignoravam o perigoso tráfego urbano. Havia carros, motos e ônibus, e dentro destes, vidas encharcadas de cansaço e pouca esperança.
De pé, dentro do lotado ônibus coletivo posso observar os mais diferentes rostos que, ao mesmo tempo, mostram-se iguais em seu tedioso cansaço da vida. À minha esquerda uma dupla de homens de meia idade conversa freneticamente em volume máximo sobre assuntos que ninguém mais tem interesse de ouvir. O sotaque paulistano adquirido após alguma temporada pela região sudeste, faz com que os ouvintes nordestinos não consigam ignorar o que está sendo falado.
Olhando através da janela, o "paulistano 1" exclama indignado.
- Que tanta gente na rua! O povo aqui não trabalha? Bando de desocupados!
O "paulistano 2" olha para a rua e não esboça qualquer sentimento ou fala, enquanto assiste vídeos virais através de seu smartphone.
O ônibus segue viagem, pessoas desembarcam, outras embarcam. Todas com a mesma cara cansada. A vida continua a girar.
É um novo dia. Quem trabalha com pessoas está obrigado a dar atenção às suas mais profundas indagações a respeito das coisas da vida. A maior recorrência está nas queixas pelas escolhas feitas ao longo dos anos. Gente velha queixando-se por ter de andar pela rua com o auxílio de uma bengala, por sentir vergonha, uma vez que já foi jovem, bonita e forte, disposta a resolver qualquer problema, independente das barreiras psicológicas e físicas.
Estas pessoas parecem ser maioria no mundo. Muitos anos vividos, e mesmo assim continuam sem entender que o sacrifício que fizeram foi em vão. No final, a morte virá cheia de dores como companhia. Ter se entregado ao sacrifício não terá adiantado de nada.
Vivemos baseados numa cultura que endeusa a ideia de sofrimento.
Se Jesus sofreu, quem sou eu para ser feliz? Essa absurda indagação faz as pessoas ficarem cegas diante da beleza da vida. Entregam-se ao culto da dor, e fazem do sacrifício seu modo de viver.
Em épocas de juventude, quando os ideais e os sonhos gritam por libertar-se, surge na alma a vontade de levar adiante os planos que podem conduzir ao sucesso. Mas o que é isto afinal?
Sentir-se realizado pelo que faz e não pelo dinheiro que recebe.
Pouca gente está disposta a pagar este preço, uma vez que o mundo diz que temos que ganhar cada vez mais, independente do esforço que teremos que fazer para isso. É nessa hora que os sonhos de ideologia são assassinados. O homem deixa de ter a alma jovem e torna-se adulto.
Está na hora de correr para o trabalho. Muitos acordam ainda de madrugada, fazem a marmita, correm para o ponto do ônibus com medo dos assaltantes que já estão na espreita. Então viajam horas até o outro lado da cidade caótica, onde produzem mais e mais. O dinheiro cresce nas mãos dos grandes. Os pequenos continuam pequenos, mas seguem o fluxo, esperando um final feliz que nunca vai chegar. Correm para o ponto do ônibus, já anoiteceu e está lotado. Depois de horas, chegam em casa, preparam o jantar e a marmita para amanhã. Já são onze da noite e só restam umas quatro horas para dormir. O ciclo se repete e será eternamente assim se não parar para pensar.
Mas quem tem tempo para pensar? Quando chegar o mês das férias, ninguém vai desperdiçá-las pensando, mas sim pegando um avião de volta para o interior, onde as horas passam mais devagar, as pessoas vagabundeiam no final da tarde, nas ruas por onde passam ônibus cheios de caras cansadas e abismadas por verem que existe gente "desocupada" no mundo.
Estar desocupado difere de ser desocupado. A vida precisa de pausas. É a hora em que a alma respira, olha para si e analisa o que está sendo feito. Estar no mundo precisa ter alguma justificativa, mesmo que seja apenas fazer feliz a si mesmo. Isto é o mínimo, o básico necessário para ser capaz de fazer a vida de outro alguém um momento agradável. É preciso investir em si mesmo, e isso demanda tempo. O valor que o tempo tem é inestimável, mas na correria do cotidiano, se torna mensurável monetariamente.
Na corrida pelo pódio do sucesso, onde a renda mensal se tornou o parâmetro mais importante, esquece-se que a vida é uma só, que o corpo não suporta muito esforço, que a mente vai chorar nas horas onde o silêncio vai reinar, seja no escuro do quarto, na intimidade do banheiro, ou inevitavelmente no final dos dias onde só sequelas restarão. Restará também a certeza de que após a morte, a vida na Terra continua independente se o indivíduo foi feliz ou não. O universo continuará a se expandir, as estrelas a morrer e ninguém tem o poder de fazer nada a respeito, a não ser no próprio universo particular chamado individualidade.
Cuidar da individualidade é dar tempo ao tempo, olhar ao redor, perceber o que precisa ser melhorado no trabalho, nos relacionamentos, no próprio corpo e no espírito. Protelar esse momento é ignorar a beleza da vida, não perceber as cores das coisas bonitas da cidade, os telhados frequentados pelos passarinhos, as árvores com suas sombras, a música da vida que toca seu refrão sem parar.
Para ouvi-la é vital o silencio, a pausa, o tempo. Essa música precisa ter um refrão bonito, ou então não vale a pena estar aqui. Quando tudo estiver escuro, ouça a música da vida e dance, no melhor sentido da palavra.


Por: JHONS CASSIMIRO

quinta-feira, 12 de maio de 2016

In Time: “viver”, “existir” e “sobreviver”?


Ver uma ficção que se encaixe em nossa realidade, fazem-nos reflectir sobre tudo que nos orienta: os acontecimentos, nossas reacções e as nossas perspectivas. Raramente navego no cinema, mas, o que inova a nossa forma de ver o mundo merece ser compartilhado, afinal, os filmes, livros, músicas e teatro trazem-nos, na sua maioria, realidades que já conhecemos, mas de forma incrivelmente nova, provocando novas reflexões. No filme O Preço de Amanhã (In Time título original), o tempo virou moeda, uma realidade impensável. Os mais ricos vivem séculos e isolado e os pobres morrem vivendo, ou seja, fazendo alguma coisa. É uma ficção que cientificamente não se ajusta à nossa realidade, mas convida-nos a reflexão do conceito “viver”.

“In Time”, de Andrew Niccol, filme de ficção científica, traz-nos uma sociedade que conseguiu bloquear o gene do envelhecimento. Todo mundo cresce até os 25 anos, e depois pode permanecer jovem para sempre, se puderem pagar por isso, afinal a superpopulação do planeta é uma preocupação geral. O tempo é a moeda de troca e beneficia os ricos, enquanto os pobres perdem o último suspiro fazendo algo pela sobrevivência.

Uma análise, não tão profundo, mostra-nos uma vida de correrias e vazia, um jovem pobre e motivado e uma jovem rica e entediada que só descobre o que é viver ao lado do mocinho pobre.
Antes de trazer o trama à nossa realidade, as três perguntas que fizemos depois do filme, são: como seria viver uma sociedade em que para tudo precisamos pagar? É claro, pagamos tudo no século XXI, mas ter que pagar alguns minutos, horas, dias ou séculos de vida? Será mesmo que lutar pela sobrevivência é ter uma vida sem objectivos, embora de correias, e ter excesso de tempo (ser rico) é ter uma vida entediada, viver adiando felicidade? A resposta é sim, como concluímos com o filme.
A acção começa quando Will Salas (Justin Timberlake), morador do subúrbio é falsamente acusado de ter roubado todo o “tempo” de Henry Hamilton, o que teria provocado sua morte, e terá de provar a sua inocência e descobrir uma maneira de destruir o sistema.
O personagem Henry aos 105 anos já havia vivido o suficiente para realizar seus sonhos e não ansiava por nada (coisa raro), não conseguia encontrar mais motivação em nada diferente, assim seu desejo era a morte:

Henry: Eu tenho 105.
Will: Sorte sua, não vai chegar 106 anos se tiver mais noites como essas (mais noites nos bares).
Henry: Você está certo, mas chega um dia em que já deu. Somente se esgota mesmo que seu corpo não. Nós queremos morrer, nós precisamos (…) Para poucos serem imortais outros tem que morrer.

Uma condição desumana

O filme inova ao tratar o tempo como uma forma de dinheiro, utilizado como moeda de troca nas actividades, e ao diferenciar as palavras “viver”, “existir” e “sobreviver”, que muitas das vezes tratamos como sinónimas.
No enredo, os pobres têm de trabalhar, pedir emprestado ou roubar mais horas para chegarem vivos até outro dia. E isso implica na necessidade de se viver intensamente, já que para estas pessoas não existe a perspectiva de um futuro. Os sonhos são raros, pois não há tempo para vivê-los e isso torna cada momento mais intenso e ao mesmo tempo gera uma vida vazia pelo constante medo do tempo acabar.
O personagem Borel, é uma ilustração de que pessoas que lutam apenas pela sobrevivência não tem objectivos, trabalhava intensamente para conseguir um tempo e sustentar sua esposa e seu filho e não conseguia aproveitar momentos. Mal que ganhou dez anos de presente do seu amigo Will, parou de trabalhar, se embebedou e acabou morrendo. Vivia melhor quando pobre, porque não tinha perspectivas. Isso não me parece estar longe da realidade, faz parte da natureza do ser humano a condição de sonhar. Se uma pessoa não tiver objectivos a serem alcançados, ela não tem direcção na sua vida. Viver simplesmente por viver não é uma condição humana.
A forma como a personagem Rachel morre não deve passar despercebido do espectador. Ela tinha uma hora e meia, uma hora para pagar transporte e trinta minutos seria o tempo que levaria para chegar em casa para seu filho a dar mais um tempinho de vida. Mas, infelizmente, o preço de transporte havia subido para duas horas, não tendo conseguido quem lhe desse uma hora morreu faltando um segundo para se encontrar com o filho.
Para levar isso a nossa realidade é só imaginar alguém que morre por falta de um centavo, só porque o milionário ao lado o ignorou.
Como explicar isso? O diálogo da Sylvia e Will responde:

Salas: Como vocês conseguem viver vendo pessoas morrendo do lado de vocês?
Sylvia: Não os vimos. Fechamos os olhos.

Já os ricos, inconscientemente morrem pelo excesso do tempo, isolam-se e param de viver (apenas existem). Como não tinha preocupação com o tempo, não importava fazer uma coisa agora ou anos para frente. Isso resultava em uma despreocupação em ter um objectivo de vida, consequentemente eles não sabiam aproveitar cada momento da vida. Sylvia, por exemplo, tinha uma praia em frente a sua casa, mas nunca tinha aproveitado um banho de mar. Para os ricos que possuíam objectivos, basicamente este objectivo era obter cada vez mais tempo e com esse tempo obter mais luxos.
O filme lançado em 2011 é do director, roteirista e produtor neozelandês, Andrew Niccol. Seus filmes normalmente exploram questões sociais, políticas e culturais, como se pode ver na obra que talvez tenha sido o seu maior sucesso: O Show de Truman, que lançou seu nome no hollywood.

Nelson Mucandze

sexta-feira, 11 de março de 2016

Discurso de Steve Jobs na Universidade de Stanford, em 2005

Você tem que encontrar o que você ama
Estou honrado de estar aqui, na formatura de uma das melhores universidades do mundo. Eu nunca me formei na universidade. Que a verdade seja dita, isso é o mais perto que eu já cheguei de uma cerimônia de formatura. Hoje, eu gostaria de contar a vocês três histórias da minha vida. E é isso. Nada demais. Apenas três histórias.
A primeira história é sobre ligar os pontos.
Eu abandonei o Reed College depois de seis meses, mas fiquei enrolando por mais 18 meses antes de realmente abandonar a escola. E por que eu a abandonei? Tudo começou antes de eu nascer. Minha mãe biológica era uma jovem universitária solteira que decidiu me dar para a adoção. Ela queria muito que eu fosse adotado por pessoas com curso superior. Tudo estava armado para que eu fosse adotado no nascimento por um advogado e sua esposa. Mas, quando eu apareci, eles decidiram que queriam mesmo uma menina.
Então meus pais, que estavam em uma lista de espera, receberam uma ligação no meio da noite com uma pergunta: “Apareceu um garoto. Vocês o querem?” Eles disseram: “É claro.”
Minha mãe biológica descobriu mais tarde que a minha mãe nunca tinha se formado na faculdade e que o meu pai nunca tinha completado o ensino médio. Ela se recusou a assinar os papéis da adoção. Ela só aceitou meses mais tarde quando os meus pais prometeram que algum dia eu iria para a faculdade. E, 17 anos mais tarde, eu fui para a faculdade. Mas, inocentemente escolhi uma faculdade que era quase tão cara quanto Stanford. E todas as economias dos meus pais, que eram da classe trabalhadora, estavam sendo usados para pagar as mensalidades. Depois de seis meses, eu não podia ver valor naquilo.
Eu não tinha idéia do que queria fazer na minha vida e menos idéia ainda de como a universidade poderia me ajudar naquela escolha. E lá estava eu, gastando todo o dinheiro que meus pais tinham juntado durante toda a vida. E então decidi largar e acreditar que tudo ficaria ok.
Foi muito assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das melhores decisões que já fiz. No minuto em que larguei, eu pude parar de assistir às matérias obrigatórias que não me interessavam e comecei a frequentar aquelas que pareciam interessantes. Não foi tudo assim romântico. Eu não tinha um quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca-Cola para ganhar 5 centavos, com os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilômetros pela cidade todo domingo à noite para ter uma boa refeição no templo hare-krishna. Eu amava aquilo.
Muito do que descobri naquela época, guiado pela minha curiosidade e intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço. Vou dar um exemplo: o Reed College oferecia naquela época a melhor formação de caligrafia do país. Em todo o campus, cada poster e cada etiqueta de gaveta eram escritas com uma bela letra de mão. Como eu tinha largado o curso e não precisava frequentar as aulas normais, decidi assistir as aulas de caligrafia. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre diferentes combinações de letras, sobre o que torna uma tipografia boa. Aquilo era bonito, histórico e artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não pode entender. E eu achei aquilo tudo fascinante.
Nada daquilo tinha qualquer aplicação prática para a minha vida. Mas 10 anos mais tarde, quando estávamos criando o primeiro computador Macintosh, tudo voltou. E nós colocamos tudo aquilo no Mac. Foi o primeiro computador com tipografia bonita. Se eu nunca tivesse deixado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido as fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E considerando que o Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum computador as tivesse.
Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm. É claro que era impossível conectar esses fatos olhando para frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois.
De novo, você não consegue conectar os fatos olhando para frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão se conectar no futuro. Você tem que acreditar em alguma coisa – sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.
Minha segunda história é sobre amor e perda.
Eu tive sorte porque descobri bem cedo o que queria fazer na minha vida. Woz e eu começamos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha 20 anos. Trabalhamos duro e, em 10 anos, a Apple se transformou em uma empresa de 2 bilhões de dólares e mais de 4 mil empregados. Um ano antes, tínhamos acabado de lançar nossa maior criação — o Macintosh — e eu tinha 30 anos.
E aí fui demitido. Como é possível ser demitido da empresa que você criou? Bem, quando a Apple cresceu, contratamos alguém para dirigir a companhia. No primeiro ano, tudo deu certo, mas com o tempo nossas visões de futuro começaram a divergir. Quando isso aconteceu, o conselho de diretores ficou do lado dele. O que tinha sido o foco de toda a minha vida adulta tinha ido embora e isso foi devastador. Fiquei sem saber o que fazer por alguns meses.
Senti que tinha decepcionado a geração anterior de empreendedores. Que tinha deixado cair o bastão no momento em que ele estava sendo passado para mim. Eu encontrei David Peckard e Bob Noyce e tentei me desculpar por ter estragado tudo daquela maneira. Foi um fracasso público e eu até mesmo pensei em deixar o Vale [do Silício].
Mas, lentamente, eu comecei a me dar conta de que eu ainda amava o que fazia. Foi quando decidi começar de novo. Não enxerguei isso na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido para mim. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo. Isso me deu liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida. Durante os cinco anos seguintes, criei uma companhia chamada NeXT, outra companhia chamada Pixar e me apaixonei por uma mulher maravilhosa que se tornou minha esposa.
A Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. Em uma inacreditável guinada de eventos, a Apple comprou a NeXT, eu voltei para a empresa e a tecnologia que desenvolvemos nela está no coração do atual renascimento da Apple.
E Lorene e eu temos uma família maravilhosa. Tenho certeza de que nada disso teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple.
Foi um remédio horrível, mas eu entendo que o paciente precisava. Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as pessoas que você ama.
Seu trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um ótimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que você faz.
Se você ainda não encontrou o que é, continue procurando. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer grande relacionamento, só fica melhor e melhor à medida que os anos passam. Então continue procurando até você achar. Não sossegue.
Minha terceira história é sobre morte.
Quando eu tinha 17 anos, li uma frase que era algo assim: “Se você viver cada dia como se fosse o último, um dia ele realmente será o último.” Aquilo me impressionou, e desde então, nos últimos 33 anos, eu olho para mim mesmo no espelho toda manhã e pergunto: “Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje?” E se a resposta é “não” por muitos dias seguidos, sei que preciso mudar alguma coisa.
Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo — expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar — caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração.
Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração.
Há um ano, eu fui diagnosticado com câncer. Era 7h30 da manhã e eu tinha uma imagem que mostrava claramente um tumor no pâncreas. Eu nem sabia o que era um pâncreas.
Os médicos me disseram que aquilo era certamente um tipo de câncer incurável, e que eu não deveria esperar viver mais de três a seis semanas. Meu médico me aconselhou a ir para casa e arrumar minhas coisas — que é o código dos médicos para “preparar para morrer”. Significa tentar dizer às suas crianças em alguns meses tudo aquilo que você pensou ter os próximos 10 anos para dizer. Significa dizer seu adeus.
Eu vivi com aquele diagnóstico o dia inteiro. Depois, à tarde, eu fiz uma biópsia, em que eles enfiaram um endoscópio pela minha garganta abaixo, através do meu estômago e pelos intestinos. Colocaram uma agulha no meu pâncreas e tiraram algumas células do tumor. Eu estava sedado, mas minha mulher, que estava lá, contou que quando os médicos viram as células em um microscópio, começaram a chorar. Era uma forma muito rara de câncer pancreático que podia ser curada com cirurgia. Eu operei e estou bem.
Isso foi o mais perto que eu estive de encarar a morte e eu espero que seja o mais perto que vou ficar pelas próximas décadas. Tendo passado por isso, posso agora dizer a vocês, com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito apenas abstrato: ninguém quer morrer. Até mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para chegar lá.
Ainda assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém nunca conseguiu escapar. E assim é como deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Nesse momento, o novo é você. Mas algum dia, não muito distante, você gradualmente se tornará um velho e será varrido. Desculpa ser tão dramático, mas isso é a verdade.
O seu tempo é limitado, então não o gaste vivendo a vida de um outro alguém.
Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da vida de outras pessoas.
Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior.
E o mais importante: tenha coragem de seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você realmente quer se tornar. Todo o resto é secundário.
Quando eu era pequeno, uma das bíblias da minha geração era o Whole Earth Catalog. Foi criado por um sujeito chamado Stewart Brand em Menlo Park, não muito longe daqui. Ele o trouxe à vida com seu toque poético. Isso foi no final dos anos 60, antes dos computadores e dos programas de paginação. Então tudo era feito com máquinas de escrever, tesouras e câmeras Polaroid.
Era como o Google em forma de livro, 35 anos antes de o Google aparecer. Era idealista e cheio de boas ferramentas e noções. Stewart e sua equipe publicaram várias edições de Whole Earth Catalog e, quando ele já tinha cumprido sua missão, eles lançaram uma edição final. Isso foi em meados de 70 e eu tinha a idade de vocês.
Na contracapa havia uma fotografia de uma estrada de interior ensolarada, daquele tipo onde você poderia se achar pedindo carona se fosse aventureiro. Abaixo, estavam as palavras:
“Continue com fome, continue bobo.”
Foi a mensagem de despedida deles. Continue com fome. Continue bobo. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, quando vocês se formam e começam de novo, eu desejo isso para vocês. Continuem com fome. Continuem bobos.

Obrigado.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Confissão: Duas horas depois, ele odeia-se por ter ficado indignado

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Um homem embarca num avião e senta-se à janela. Ele mora Tóquio, no Japão, e planeja voar até Hong Kong, na China. Porém, minutos depois uma mulher ocupa o assento ao lado dele, transformando o seu pior pesadelo em realidade.

“Olá! Tudo bem?” perguntou esta estranha ao se aproximar. Equilibrando o seu volumoso corpo, ela teve que se abaixar lentamente, espremendo seu traseiro para que ele coubesse no assento do avião.
Após se posicionar confortavelmente, ela colocou seu enorme braço no apoio entre as nossas cadeiras. A sua imensidão saturou o espaço entre nós e eu e meu assento fomos espremidos contra a janela.

Como eu não reagi à sua pergunta, ela repetiu a saudação em tom alegre e amigável. O seu rosto elevava-se acima da minha cabeça e eu tive que girar o meu corpo para poder vê-la. “Olá”, respondi, obviamente incomodado.
Em seguida, virei-me para a janela, maldizendo, em silêncio, as longas horas de desconforto que eu teria que enfrentar com este monstro ao meu lado.
Ela tocou-me com o braço carnudo. “O meu nome é Laura. Eu sou da Grã-Bretanha. E você? Japonês?”
“Malásia”, resmunguei.
“Eu sinto muito pelo incómodo! Aceitarias meu sincero pedido de desculpas? Vamos lá, aperte a minha mão. Se nós vamos passar 6 horas lado-a-lado neste vôo é melhor sermos amigos, não achas?” Ela estendeu o braço e acabei por lhe apertar a mão, ainda que relutantemente.
Indiferente ao meu comportamento rude, Laura começou a conversar comigo. Ela contou-me animada que estava a ir para Hong Kong para visitar alguns amigos. Ela também descreveu contente os presentes que planejava comprar para os seus alunos do internato onde ela dava aulas.
Para cada pergunta que ela fazia, eu respondia com uma única palavra. Sem se abalar com minhas reações frias, Laura assentia com a cabeça e tecia comentários positivos em relação às minhas respostas. A sua voz era suave e carinhosa. Quando a refeição foi servida, ela fez de tudo para que eu tivesse espaço suficiente para comer e me movimentar. “Eu não quero espremer-te com o meu corpo de elefante!” ela disse com sinceridade.
Para minha surpresa, aquela mulher que me causou tanta repulsa quando chegou, começou a ganhar a minha simpatia. Aos poucos, eu comecei a baixar a minha guarda.
Laura tinha uma conversa interessante. Ele era culta e sabia muito de filosofia e ciência. Ela conseguia tornar os assuntos mais banais em algo a ser analisado e discutido. Quando começamos a falar sobre cultura, eu fiquei surpreso com os seus comentários inteligentes e bem colocados. Além disso, seu senso de humor era incrível!
Durante todo o tempo no avião, Laura entreteve todos os comissários de bordo com as suas brincadeiras e o seu bom humor.
Quando uma hospedeira veio recolher os nossos pratos, Laura fez várias piadas em relação ao seu próprio peso. A comissária chorou de tanto rir e no final segurou a mão de Laura e disse: “você fez-me ganhar o dia!”
Eu perguntei à Laura: “Nunca pensou em tentar perder um pouco de peso?”
“Não. Eu trabalhei duro para chegar onde cheguei. Porque quereria voltar atrás?”
“Você não se preocupa com a sua saúde e com os problemas relacionados à obesidade?”
“Não. Você só fica doente se pensar constantemente sobre o seu peso. Você vê anuncios de centros de emagrecimento que dizem ‘liberte-se do seu peso extra e volte a ser você mesma’. Uma grande mentira! Você só é você mesma quando se sente confortável e satisfeita sendo quem é, independente da sua aparência. E isso não apenas num dia específico, e sim em todos os dias do ano. Porque deveria eu gastar o meu tempo com regimes se posso fazer outras coisas muito mais interessantes? Eu alimento-me de maneira saudável e faço exercícios. Eu tenho este tamanho porque nasci para ser gordinha! A vida é muito mais do que estes quilos extras! E eu tenho outras coisas melhores para fazer, ao invés de pensar o tempo todo nas minhas banhas.”
Laura tomou então um gole de vinho. “Além disso, Deus deu-me tanta felicidade que eu precisei de um corpo grande para poder acomodar toda esta alegria de viver. E porque escolheria eu perder peso e felicidade ao mesmo tempo?”
Surpreendido com a sua lógica, eu sorri.
Laura continuou. “As pessoas em geral veem-me como uma mulher gorda, com grandes seios, enormes coxas e com um bum-bum tão gigantesco que nenhum homem jamais chegaria a apreciar. Elas acreditam que eu seja uma bobona e acham que eu sou preguiçosa e não tenho força de vontade. Mas as pessoas estão erradas.”
Com um sorriso no rosto, ela pede à hospedeira mais um pouco de vinho. Ao agradecer, ela gentilmente adiciona: “Esta tripulação está a fazer um ótimo trabalho. Que Deus vos abençoe a todos.”
Virando-se na minha direção, Laura continua: “Na verdade, eu sou uma pessoa magra por dentro. Eu tenho tanta energia que a maior parte das pessoas não consegue acompanhar-me. Esta carne extra está aqui para me desacelerar, ou estaria por aí a correr atrás de homens o tempo todo!”
“E os homens correm atrás de você?” perguntei eu brincando.
“É claro que sim. Eu sou muito bem casada, mas outros homens continuam a dar piropos. A maior parte deles está a passar por uma crise no relacionamento e querem alguém para conversar. Eu não sei bem porque, mas eles gostam de conversar comigo. Eu acho que eu deveria ter sido terapeuta, ao invés de professora.
Após uma curta pausa, Laura continua. “Você sabe, os relacionamentos são muito complicados. As mulheres veneram os homens e chamam-nos de ‘meu amor’ até que descobrem que foram traídas. A partir daí elas transformam-se em verdadeiros monstros. Já os homens, eles amam profundamente as suas mulheres, até que descobrem os custos de ter uma esposa e uma família, e passam a ver a mulher como um diabo segurando tridentes!”
A conversa com Laura acabou por fazer com que meu longo vôo se transformasse num momento muito agradável. Eu fiquei fascinado com o seu carisma. Perto do fim da viagem, quase metade dos comissários de bordo estavam parados no corredor perto dos nossos assentos, rindo e conversando com Laura. Outros passageiros ao redor também participaram deste incrível momento de trocas e sorrisos. Laura emanava uma energia positiva, calorosa e feliz.
Quando nós nos despedimos no saguão do aeroporto de Hong Kong, eu observei enquanto ela caminhava em direção a um grupo sorridente de adultos e crianças. Mesmo de longe, eu ouvi os gritos animados e as gargalhadas daquelas pessoas, que efusivamente abraçavam e beijavam a Laura. De repente, ela virou-se e acenou uma última vez na minha direção.
Eu fiquei surprendido com a conclusão a que cheguei naquele dia: Laura era a mulher mais bonita que eu já tinha conhecido.”
Que história linda! A mensagem que ela transmite é uma verdadeira lição de vida. Partilha este artigo com teus amigos e espalha estas palavras bonitas pelo mundo!
heftig.co

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O Triunfo Da Mulher

Esta não é a primeira vez que me chamam de insensato ao buscar aquilo que não se encontra neste mundo! Voltei já há duas semanas e outro médico que me foi recomendado pela Marta logo depois que meu corpo começou a questionar a minha saúde, era uma figura que também comentava sobre coisas impossíveis. O desgraçado se comportava como se não soubesse que eu o conheço.

Burrice! Só alguém cego e surdo não saberia da sua imundície escondida naquele título inocente. Antes que essa baixeza toda se espalhasse, a maioria das pessoas nunca tinham ouvido falar sobre as razões que me prendem a ela. Outra maioria nunca me tinha questionado! Falam as costas os mexeriqueiros tímidos, encaram-me os corajosos, e não me entendem os racionais!

Eu, somente eu, toquei no seu amor, um sentimento palpável ela tem por mim. São realmente mistérios dos que aceitam sua condição humana, que você, oh Doutor, de olhos vedados, não pode ver.

As pessoas do coração sedento de amor esquivam-se e rendem-se aos vários amantes. Pelo medo de ter que diminuir-se ao aproximar-se dela. Em todos os séculos, em todas revoluções este sentimento que é próprio dos homens, teve essa guia. Mas você, logo você que se deliciou das várias magias femininas, confundiu a sua insaciável necessidade biológica e correspondência aos apelos da sua alma egocêntrica como um ser superior a sua espécie.
Mas eu… eu sou inferior a ela… e ela a mim. Me completo, sou absoluto e aceite!
Minha certeza de ser um realizado não vem dos contornos do corpo dela, lugar onde se acumula experiências, visões e sensibilidades que reavivam nossos sentimentos quando nossos corpos se juntam, como se tudo voltasse ao inicio do mundo. Todos os homens da terra, angustiadas ou vivos, felizes ou mortos, encontram essas fantasias dolorosas quando curtas. Monopólio dos que buscam uma felicidade relâmpago, sintoma de uma dor aguda! Que termina com uma dor cicatrizada na pele dela e transforma-se numa dor física, que a fará duvidar daquele amor eterno que lhe aguarda a vida.
Esta dúvida, Doutor, que chega aos 35 anos de idade sobre anos de agonia, noites de traumas, madrugadas traídas e segundos de felicidade, é unívoca de que não é nessa vida onde se encontra o seu amor. Ou todos são iguais a você, oh homem errado!
Não me surpreendem as novas crenças da dona Madalena. De facto, suas riquezas amargas reactivaram e regaram essa crença de que hoje não existe homens para casar. Depois do tempo perdido com vários Doutores passageiros, ela cria que contigo ia recuperar seu tempo perdido, recuperou sim, e continua perdida. Para quem a conhece ela é vulgar, mas para quem nunca a viu, será sempre a única. Como ela mesma disse: a fraqueza dos homens torna as mulheres fortes. Eis aqui o triunfo das mulheres!
*
Não contarei todos os dramas amorosos da minha mocidade. O amor tem uma história só. Encontrei-a na vida, no banco da igreja, olhemo-nos e apaixonamos como acontece com todos viventes que encontram seus pares nos espaços da vida. Anos depois amei-a. É tudo! E vivo hoje no aconchego de seus braços, embalado pelo seu perfume, encantado por sua voz, iluminado por seu olhar, aprisionado, envolvido, ligado a tudo que emana seu ser. Eis o triunfo dela! A minha crença no amor.
Sei que Doutor não! Ouve-se e ecoou nos meus ouvidos como estreou a sua adolescência. A primeira encontrou-a na vida, na cadeira do bar, olhou-a, te respondeu com suas carícias e antes de troca de identidade haviam se conhecido. Romântico, mas, sem histórico!
Ouve-se também que esteve uns dias no centro da cidade do antigo Lourenço Marques, onde a vista no centro da cidade não compensa tanto. Mas a beleza da Rosy, que lá nos bairros os vizinhos a consagra Rosinha. Zinha dentro de casa. E de Rosa pelo seu oficial namorado, compensou a sua estadia. Continuo curioso para conhecer o fim, porque me interessam as tempestades de amor mal iniciado.
Fiquei triste em saber que as riquezas de Ilha de Moçambique, aquelas pinturas mágicas da natureza, não te ofereceram consolação quando o jovem Mungone ameaçou-te de morte por ter suspeitado do seu envolvimento com sua irmã. Mungone talvez confiasse na pobreza da sua ignorância, pensasse que és um homem bom, e poderia roubar-lhe a família. Meu Doutor desventurado, aquele povo escolheu suas crenças e uma delas é que a mulher é que casa o homem. Moçambique pode ser único, mais seus povos são vários. Tem povos nas vilas, nas comunidades, nas cidades…
Juntei cuidadosamente tudo quanto me foi possível ouvir a respeito das suas viagens em nome do trabalho que no final lhe criou prejuízos amorosos. Ficou feliz em saber que tem filhos, três fora e divididas e, dois dentro. Mas fiquei triste ao saber que dos que estão fora, um é criado pela avó camponesa, outros não tenho detalhes. Enganei-me quando pensei que Doutores não têm mais de três filhos, sabem economizar.
Mas as mulheres não são assim, economista. Elas multiplicam tudo. Uma noite de amor vale um filho, uma casa - um lar. Se lhe deres compras de mercearia, ela vai dar-te uma refeição. Se lhe deres um sorriso, ela vai dar-te o coração. Já imaginaste o que acontece quando lhe dás ao contrário?
Sobre mim, infelizmente só posso historiar muitos devaneios com o mesmo amor. Amei-a e amo ela. Naquele dia inesquecível, encontrei seu corpo imóvel no mesmo banco que a confortava, seus olhos passeavam sobre tudo que lhe rodeava. Quando se fixou nos meus os seus olhos, senti, ao contemplá-la, uma estranha sensação. Não foi o que se chama de amor à primeira vista, mas, um sentimento de bem-estar delicioso, como se eu estivesse mergulhado num banho de água quente.
Ao olhá-la, toda a sua figura provocava em mim um prazer infinito. Assumo que sou insensato, ao encontrar uma mulher que tem em si algo do meu próprio espírito.
*
Ela perdeu a frescura da puberdade, mas atrai-me e prende-me com um fascínio irresistível! Só posso repetir tudo isso a mim mesmo, ao mais profundo da minha alma.

Em toda a minha vida, nunca vi tão ardente paixão e tão alvoroçado desejo aliados a tanta pureza. Posso garantir-lhe que nem em imaginação eu me sinto tão puro. Essa pureza é minha consciência limpa. Afirmo que só à lembrança de um sentimento tão sincero e cheio de inocência, pode me prender… quando distante, sinto-me abrasado até o mais profundo do meu ser.

Bolas! Todos dizem isso da sua amante não é verdade? Mas ela não é minha amante!
Doutor, minha certeza de que encontrei a mulher certa, vem da certeza de que eu sou o homem certo. Sei que sou insensato, mas não me acorda desse sentimento.


Ela não é perfeita. Seus erros, Doutor, são aplicáveis ao mundo de todas as mulheres. Mas eu cometo com ela. É triunfo dela. A minha insensatez!

Nelson Mucandze

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A redenção

Portais

Nascemos, reproduzimos e morremos. Não há consciência para interferir no nosso próprio nascimento, podemos negar reproduzir e ficarmos isolados, mas no final somos confundidos pelo mesmo fim, sem posterior justificação: o grande mistério. Essa trajectória humana, decretada pela natureza antes de nós, dos nossos pais, dos nossos avós, ou da própria natureza, foi objecto de reflexão que esgotou as últimas memórias do Sr. Fastudo após o seu aposento.
Mas não todo o percurso humano, ele já havia nascido e reproduzido. Seu errou, para psicólogos, foi encarar seu aposento como candidatura ao último estágio da sua trajectória, a morte.
Enganaram-se. Homens de classe do Sr. Fastudo preocupam-se sempre com as suas memórias nas próximas décadas mesmo sabendo que seus futuros estão em rápido envelhecimento. Findo a vida, poderão construir-se monumentos, estátuas e livros que reflectirão sua existência, mas a consciência de que não existe um outro tempo para refazer a vida pode ser perturbador. Ele queria aproveitar cada segundo da vida compensando os minutos desperdiçados nas ambiciosas aventuras da juventude, e estancar as lacunas por si inauguradas. Cada passo que o tempo dá, inspira diferenças, mudam objectivos, sonhos e idades. Mas é bom repetir que um homem como este, não muda dos seus objectivos pela baixeza da natureza, não se rende à degradação de ser para ter. Seu sonho desde que aprendeu que com a revolução tecnológico num mundo ainda em desenvolvimento não era possível formar líderes de transformação social como antes cria, foi provar a afirmação do seu pai que disse: “afinal: não estamos sozinhos”. Durante trinta anos de carreira, muita coisa não deu certo, cada descoberta sua, era mais um inimigo, embora seu nome estivesse na história, pelos prémios ganhos, lhe faltava a consciência do dever comprido.
Terminada sua carreira de docência, não se apressou em ir ver os seus filhos no Ocidente, e preferiu pegar voo, percorrer 2 000 quilómetros para casa onde se viu nascer. “Bons filhos sempre voltam a casa”, quem não sabe?
Logo que chegou, o vazio deixado pelos seus pais permanecia cicatrizado no rosto da Dona Vera, que coordenava todos os trabalhos, inclusive os hotéis que recebiam visitantes nos finais de ano e nos períodos de pascoa. A maioria deles, eram pessoas estranhas com uma altura de um ou um metro e meio, e com voos transparentes. Poucas vezes, o lugar acolhia também reuniões de militares, astronautas e cientistas.
Embora fosse de desconfiar, o lugar nunca recebeu qualquer equipe da imprensa ou talvez um jornalista aventureiro.
Dia seguinte pela manhã, chamou a empregada, e disse:
- Dona Vera. Há quanto tempo a senhora não visita seu país?
- Desde que aqueles ladrões mandaram patrão caçar homens baixinhos lá fora.
- Faz muito tempo. Já que reformei vou ficar aqui uns meses. Pode tirar férias.
A Dona Vera hesitou, mas não teve escolha. O Sr. Fastudo queria ficar sozinho, se ocupar em apreciar objectos antigos na companhia da sua solidão que lhe trouxera lembranças de tudo quando havia vivenciado com seus pais.
Além do mais, ele aceitou o repouso e, a relutante isolação, não por falta de condições de se ocupar com os prazeres da natureza ou passar com a sua família à quem não informou da viagem, mas porque o corpo mostrava sinais dos seus limites e precisava de respostas para as suas assombrações criadas logo ao desaparecimento dos seus pais.
Foi essa sua motivação para nas horas extras das longas três décadas da sua carreira se dedicar ao estudo das viagens redimensionais, não esperar pelo milagre e muito menos dos resultados da polícia de investigação, que até 20 anos nada havia anunciado.
Ele ficou sozinho naquela mansão grande, naquele lugar pequeno, quase sem moradores, com poucos factos policiais, e sem registos de acontecimentos anuais. Até porque nos países em desenvolvimento todas atenções estão viradas nas cidades, onde estão concentrados os políticos.

Seu primeiro exercício foi penetrar no âmago do seu interior, e questionar-se sobre o motor que o impeliu da sociedade em que estivera inserido e começou a contestar a validade de toda a sua actividade.
Na noite seguinte foi pegar no seu telescópio de astrônomo, que o acompanhou com a raridade estimação na sua adolescência, mas também, que na sua ausência, seus progenitores usavam para ver as estrelas, nas noites do céu encoberto. Numa casa de cientistas, o gesto era ritual da família, e a própria localização da casa ajudava. Nesse olhar, sonhou com outro mundo, o planeta terra não teve resposta para explicar a habitação dos seus pais.
O mundo novo sempre desprezou a individualidade humana. Quando a notícia sobre o silêncio do Sr. Fastudo escapou aos medias, foi classificado como ridículo por ter fechado hospedagem. Não queria nenhum contacto com os psicólogos e sociólogos, que exploram as nossas dores para abastecer suas teses.
Sentia-se como um homem pronto para terminar sua legação no percurso da vida, sua inspiração durante décadas na sua carreira foi impulsionar as mudanças tecnológicas para que da sua faculdade saísse líderes capazes de controlar transformação social. Mas inútil porque não havia ainda honrado a promessa que se fez quando na sua ausência seus pais foram entregues a eternidade.
Seu pai era cientista que realizava pesquisas pentadimensional no Centro de Estudos Dimensionais (CED) e desenvolvera métodos de viajar entre as dimensões, após a descoberta do oitavo planeta, ele contou aos seus colegas sobre as experiencias vividas na lua. A alta tecnologia que imperava estava em perigo pela descoberta do novo planeta.
Até ai nada de errado era visível, mas as relações no seu trabalho começaram a mudar quando a notícia foi parar na imprensa.
Noutro ano, em uma noite de aniversário de casamento, o astronauta resolveu surpreender sua amada esposa com uma viagem no espaço.
Conta-se que o comandante Relvo, de patrulha dimensional não autorizou a viagem, mas como o noivo astronauta armazenava todos os códigos das naves e todas as chaves estavam sob sua guarda, com ou sem autorização do Relvo podia efectuar qualquer viagem no espaço.
Não se sabe ao certo o porque nunca voltou. Há tantas versões, mas nenhuma delas mereceu a consideração do filho Sr. Fastudo, que considera dogmas factos por ele não comprovados.
O mesmo livro, cada um lê de acordo com o seu interesse. Quando a polícia negou se pronunciar sobre o desaparecimento do casal à imprensa, cada repórter escreveu de acordo com a sua cegueira. As reportagens saídas nas TVs sobre cientistas falavam do casal que cometeu suicídio no espaço. As manchetes nos jornais escreviam sobre o casal de cientistas que se perdeu na recém planeta descoberta. O casal sequestrado pelos extraterrestres, na rádio. Todas aquelas publicações datadas no mês - primeiro da primeira década do ano três mil, pareciam uma fixação digna de análise, como ele dizia “onde há três vozes, há duas mentiras”. Para não falar das redes sociais que colocavam possibilidade de o casal ter abandonado Planeta Terra para viver no oitavo universo que havia descoberto. Podiam estar certos, tinha ar e água!

Esse é principal distúrbio das tecnologias de informação, que buscam formar e conectar humanos, mas nem elas mesmas se informam e muitos menos estão conectadas. Para Sr. Fastudo isso não era nenhuma surpresa e não se deixava contaminar. O homem escolhia o que ler, ouvir e ver, e no fim, tinha cérebro para compreender.
Dias passaram, a fuga de informação sobre seres de outro planeta era cada vez mais comum, já cegava nos holofotes públicos. Estas conversas lhe interessavam, não perdia vaga de acompanhar as reuniões secretas de militares, astronauta ou cientistas pela TV de 52 polegares que estava no centro de sala ornamentada pelos objectos da mais alta tecnologia, e pintada de poeira, que descrevia a ausência da Dona Vera.
O Sr. Fastudo estava lá, naquela casa que o viu nascer. Voltou para seu escritório caseiro. Era uma sala sem papéis, e nem livros e com apenas duas cadeiras. Tudo reflectia sua adolescência. Quando tinha dez anos seus pais criam no seu autodomínio, e como fazem os de hoje, davam lhe televisores como adornos das cabeceiras, incontáveis canais a cabo, e telemóveis que facilitavam as viagens virtuais.
Eles haviam dito que as bibliotecas da cidade eram grandes mas não maiores que a internet. Guardavam livros em infinitésimas estantes. E reservavam mais vantagens por considerar, que os seus corredores não enchem, basta um dedo na tecla que tudo vem ao ecrã. Eram seus discursos em louvor aos livros electrónicos, desses que percorremos as páginas sem folhear.

Mas não encontrou naquela sala qualquer objecto que pudesse ajudar a explicar a ida sem volta dos seus progenitores. Voltou com seu telescópio para mais uma visão na varanda, como era o seu costume, viu algo como estrela cadente a subir em direcção a lua. Mais isso, em ano três mil já era natural. Não viu nada de especial.
No domingo, noticiário, das 20 horas, foi anunciado o sumiço do último extraterrestre que ficava no laboratório do CED para cientistas que se dedicavam na identificação dos extraterrestres.
Na segunda-feira, o homem acordou de súbito, suas visões unidas com o noticiário chegavam a uma conclusão: não foi estrela que eu vi, são seres que tem informações que eu preciso.
Sem mais delongas, o Sr. Fastudo ligou para o comandante Relvo, que esteve lado a lado com o seu pai.
- A informação que vi na TV é verdadeira?
- A CED não está envolvida em nenhuma espécie de camuflagem acerca da existência de extraterrestre. Portanto Sr. não é verdade.
- Obrigado comandante, pensei que pudesse ajudar.
Uma hora depois o Relvo, volta a ligar e sugere um encontro com o Relvo.
- Não precisa, comandante…
- Não é uma escolha. Você falou de me ajudar e eu preciso – interrompeu a forçou o encontro.
Trinta minutos depois, viu as luzes da sala a mudarem de cor. A sua atrás viu uma névoa a se abrir, configurando uma espécie de porta, de onde saiu um exército, comandado pelo Relvo.
- Como entraram aqui? - berrou o Sr. Fastudo.
- Você não acreditaria se lhe disséssemos, e podemos lhe garantir que não está alucinado, mas o importante, Sr. Fastudo é que contamos com a tua colaboração para provar ao contrário as crenças do seu pai.
O encontro durou duas horas, o homem de 70 anos foi um mês depois encontrado morto na varanda pela Dona Vera.

Por Nelson Mucandze

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